sábado, dezembro 28, 2013

O Relojoeiro

O mecanismo interno de um relógio serve de analogia da vida cristã. Engrenagens que giram em sentido horário estão unidas a outras que trabalham em sentido inverso. A impressão é a de que um relojoeiro maluco inventou esse objeto. Aparentemente, o confronto de movimentos inviabilizaria o funcionamento do relógio.  Mas, o olhar de um perito sabe que o mecanismo possui uma mola mestra que controla todas as outras engrenagens. A carta escondida na manga é que todas trabalham juntas com um objetivo definido: mostrar o horário correto.
Quando as dúvidas surgirem, quando as coisas parecerem sem sentido, quando o sofrimento brotar sem aviso prévio, quando você se considerar injustiçado, lembre-se das engrenagens de um relógio. O Relojoeiro sabe o que está fazendo. Confie que todas essas engrenagens aparentemente destrambelhadas funcionarão perfeitamente dentro dos planos de Deus. Repouse nos braços eternos confiando que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus”.
(Trecho extraído do livro "Náufragos da Fé" © de Samuel Rezende)

segunda-feira, dezembro 23, 2013

O Príncipe da Paz

700 anos antes de Cristo, inspirado por Deus, o profeta Isaías escreveu algumas palavras que me fazem estremecer: “Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Is. 9:6)

Será que eu o considero tão Maravilhoso que sou capaz de entregar todas as coisas – incluindo os desejos desordenados, os planos egocêntricos – confiando no caminho que Ele traçou?

Será que eu o considero meu Conselheiro e vivencio os Seus ensinamentos?

Será que eu o considero o Deus Forte mais forte do que os meus desejos, poder financeiro e projetos?

Será que eu o considero o Pai da Eternidade a tal ponto que abro mão das coisas transitórias?

Será que eu o considero o Príncipe da Paz, mas ao mesmo tempo vivo como um súdito mergulhado em intensa agonia?

Que neste Natal e em todas as manhãs das nossas vidas possa nascer o Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade e Príncipe da Paz.

sexta-feira, dezembro 20, 2013

Meu Deus! Meu Deus! Por Que me Abandonaste?

O cristão deve ter a coragem de enfrentar as trevas que envolvem a vida humana. Não deve se deter quando confrontado com lacunas, mistérios ou ambigüidades. Sim, há momentos em que a bússola parece quebrada, que o porto foi destruído por um vendaval. Deus nos visita sob a forma de uma onda aterrorizante?

“Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?”. Quando Cristo espalha essas palavras, não há nada que ele possa ouvir, exceto a sua própria voz ecoando pelo monte Calvário. De certo modo, estas palavras são um convite para que nos movamos através do deserto, com as pernas quebradas e o corpo em frangalhos. Ninguém disse que a viagem seria fácil. A mensagem do Evangelho não é a do livramento das dores e sofrimentos, mas a presença de Deus caminhando conosco, mesmo quando imaginamos que Ele nos abandonou.
(Trecho extraído do livro "Náufragos da Fé" © de Samuel Rezende)

terça-feira, dezembro 17, 2013

Sacerdotes Ptolomeus e Copérnicos

Vivemos tempos nos quais proliferam sacerdotes ptolomeus. Ptolomeu foi um astrônomo egípcio que defendia ardentemente que a Terra era o centro do universo e o sol e as estrelas giravam em torno dela. Muitas lideranças religiosas se colocam no centro do culto como animadores de auditório, determinando isso e aquilo.

Precisamos de mais sacerdotes copérnicos. Copérnico foi um astrônomo polonês que desenvolveu a teoria de que o Sol é o centro do universo e a terra gira em torno dele. Clamo ao Senhor da seara que envie mais lideranças religiosas que orbitem em torno do Sol da justiça, lideranças capazes de simplesmente dizer: “É necessário que Ele cresça e que eu diminua” (Jo. 3:30).

quarta-feira, dezembro 04, 2013

O Chamado

Henry Ossawa Tanner pintou “A Anunciação”, a sua versão pessoal do momento no qual a Virgem Maria recebe a notícia de que foi escolhida para dar à luz ao Messias prometido. Na pintura o anjo Gabriel revela-se como um intenso raio de luz provocando surpresa, admiração e reverência na jovem. Deus aguardava a resposta de uma jovem assustada. E quando a resposta vem, é simples e profunda: “Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra" (Lc. 1:38). A Anunciação é um lembrete de que a qualquer momento um visitante inesperado pode invadir a minha vida trazendo um convite para trilhar caminhos que jamais imaginei. Ele não precisa me visitar com shows pirotécnicos ou numa extraordinária experiência espiritual. A questão não é como Ele vem, mas como eu respondo ao chamado. 

terça-feira, novembro 26, 2013

Jugo Suave e Fardo Leve?

Jesus nos convidou a aceitar o “jugo suave” e o “fardo leve”. Um paradoxo como a deslumbrante escuridão. O jugo é suave porque Jesus é manso e humilde de coração. Ele conhece a nossa estrutura. Ele compreende a nossa fraqueza. Trata-se de um jugo projetado especificamente, que se encaixa no nosso temperamento, convivendo com as nossas forças e fraquezas, de forma generosa e gentil.
            O jugo é suave porque corresponde à realidade da nossa vida. O jugo é suave porque Jesus está conosco, como dois em uma canga de boi. O jugo é suave e o fardo leve porque estou vestido com o meu verdadeiro eu, sem medo e vergonha. A máscara é muito mais pesada do que podemos imaginar.

quarta-feira, novembro 20, 2013

Um Caminho ou O Caminho

Jesus não é um caminho. Jesus é O caminho. Muitos que dizem confessar o Seu nome, concomitantemente, anunciam um cristo totalmente estranho aos Evangelhos; um cristo moldado por ideologias anticristãs, sutilmente infiltradas nas igrejas através de frases formuladas por pensadores que, na verdade, tentam derrubar o alicerce bíblico. Quando você ler uma frase ou livro de um autor intitulado cristão, preste atenção se o que ele diz tem respaldo bíblico ou é a velha estratégia ideológica de cores marxistas embaladas em frases de auto ajuda a la teologia da libertação.

sexta-feira, novembro 08, 2013

Na Estrada que Ele Projetou

Gostamos de falar da luz divina, mas tentamos ocultar os nossos pecados com justificativas, a preferida é: Ele me fez assim. Ousamos transferir os nossos pecados ao próprio Deus, nem mesmo Adão e Eva foram tão longe.
Queremos a salvação universal, mas não que Ele nos salve de nós mesmos. Pedimos que abençoe os nossos caminhos, mas não queremos caminhar na estrada que Ele projetou – só a aceitamos se for compatível com aquilo que desejamos.
Então inventamos deuses que se adaptam as nossas reivindicações de felicidade, liberdade, cura e prosperidade. Não queremos um Deus que nos dá a felicidade a Seu modo, uma liberdade submetida à vontade dEle, a cura e a prosperidade dentro do Seu projeto. Fingimos não saber que somos chamados a esquecermos de nós mesmos para que possamos lembrar-nos de Deus.
(Trecho do livro "Um Grito de Ausência" © de Samuel Rezende)

terça-feira, novembro 05, 2013

Em Tempos de Religião Vida Mansa

Acabei de ler que duas "pastoras" lésbicas, que em 2011 fundaram uma igreja em SP, resolveram se casar. Como sempre, alguns politicamente corretos se esbaldam dizendo que Jesus amava e aceitava a todos, incondicionalmente. Jesus amava a mulher adúltera, a perdoou, mas também a orientou: "Vá, e não peques mais".
Outros, dizem que Jesus nunca disse nada sobre a homossexualidade. Quando Jesus queria corrigir uma visão deturpada sobre determinado assunto, ele se manifestou, na maioria das vezes dizendo: “Ouviste o que foi dito aos antigos, eu porém vos digo…”. Jesus também não disse nada sobre o estupro, aborto e sexo com animais, dentre outras coisas. O silêncio de Jesus ratificou o que já havia sido dito. O mesmo vale para a homossexualidade.
Em tempos de religião vida mansa, de releituras para agradar o paladar dos sodomitas, urge relembrar algumas palavras do apóstolo Paulo: "Conjuro-te diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos, pela sua vinda e pelo seu reino; prega a palavra, insta a tempo e fora de tempo, admoesta, repreende, exorta, com toda longanimidade e ensino.
Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo grande desejo de ouvir coisas agradáveis, ajuntarão para si mestres segundo os seus próprios desejos, e não só desviarão os ouvidos da verdade, mas se voltarão às fábulas. Tu, porém, sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um evangelista, cumpre o teu ministério. Quanto a mim, já estou sendo derramado como libação, e o tempo da minha partida está próximo. Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda" (II Timóteo 4:1-8).
O que Paulo diria para alguns cristãos que estão depondo as armas diante do bombardeio dos politicamente corretos? Acho que ele já disse: "Admiro-me de que vocês estejam abandonando tão rapidamente aquele que os chamou pela graça de Cristo, para seguirem outro evangelho que, na realidade, não é o evangelho. O que ocorre é que algumas pessoas os estão perturbando, querendo perverter o evangelho de Cristo. Mas ainda que nós ou um anjo do céu pregue um evangelho diferente daquele que lhes pregamos, que seja amaldiçoado! Como já dissemos, agora repito: Se alguém lhes anuncia um evangelho diferente daquele que já receberam, que seja amaldiçoado!
Acaso busco eu agora a aprovação dos homens ou a de Deus? Ou estou tentando agradar a homens? Se eu ainda estivesse procurando agradar a homens, não seria servo de Cristo. Irmãos, quero que saibam que o evangelho por mim anunciado não é de origem humana. Não o recebi de pessoa alguma nem me foi ele ensinado; pelo contrário, eu o recebi de Jesus Cristo por revelação" (Gálatas 1:6-12).
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A igreja não deve se preocupar por destoar do padrão do mundo. A igreja não é um clube cuja finalidade consiste na adaptação de Deus aos padrões estabelecidos por seus membros. A igreja tem apenas de pregar o evangelho e não se preocupar com o ranger de dentes dos politicamente corretos.

quarta-feira, outubro 30, 2013

O Encontro

Quando vejo imagens mostrando extenuados espermatozoides ansiosamente se aproximando de um óvulo, enxergo um bando de alienígenas tentando chegar a um planeta habitável. 
Enquanto Allan Kardec adaptava a teoria darwiniana da evolução das espécies para o universo espiritual, apontando “soluções” para o enigma dos bebês deficientes, aos 22 anos eu já tinha a experiência de conviver com dois bebês portadores de uma síndrome raríssima. Ambos morreram. 
Uma das grandes lições que aprendi é que o surpreendente não é nascerem bebês “anormais”, mas sim o nascimento de milhares “perfeitos”. A intrincada bioquímica envolvida na gestação de uma criança saudável é espantosa.

Tinha razão o salmista quando exclamou: “Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe. Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Disso tenho plena certeza.
Meus ossos não estavam escondidos de ti quando em secreto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos viram o meu embrião; todos os dias determinados para mim foram escritos no teu livro antes de qualquer deles existir. Como são preciosos para mim os teus pensamentos, ó Deus! Como é grande a soma deles!" (Salmos 139:13-17).

segunda-feira, outubro 28, 2013

Fragmentos II

A igreja não deve se preocupar por destoar do padrão do mundo. A igreja não é um clube cuja finalidade consiste na adaptação de Deus aos padrões estabelecidos por seus membros. A igreja tem apenas de pregar o evangelho e não se preocupar com o ranger de dentes dos politicamente corretos.

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Deus não é um funcionário sujeito a demissão. Ele não pode ser avaliado pelo que fez ou deixou de fazer. Ele não precisa se justificar. Ele não está no banco dos réus. Ele não é o personagem de uma saga, mas o Autor de um épico inesquecível. Um dia, quando a obra estiver pronta, veremos como o grande Artista criou uma obra magnífica trabalhando com personagens inconstantes, mesquinhos, celerados, hipócritas, teimosos, irritantes a tal ponto que um artista qualquer já teria desistido. Mas Ele não desistiu. Pacientemente vem costurando os retalhos que deixamos pelo caminho; ajeitando as notas desafinadas; corrigindo as toscas pinceladas que imaginamos admiráveis pinturas; aprimorando as frases displicentemente atiradas ao vento. Deus é digno de todo louvor, honra e glória,simplesmente porque Ele é Deus.

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C. S. Lewis escreveu: "Para os sábios da antiguidade, o problema principal era como conformar a alma à realidade, e a solução encontrada foi o conhecimento, a autodisciplina e a virtude". O "sábio" pós-moderno tenta subjugar a realidade para satisfazer os seus desejos desordenados. Isso implica em suprimir a Verdade absoluta e, por consequência, destruir a moral objetiva. Não há nada de novo sob o sol, dizia o pregador. Tudo não passa de uma releitura do que aconteceu no Éden: a rebeldia do espírito humano contra o seu Criador.

terça-feira, outubro 22, 2013

Gravidade

Título Original: Gravity
Direção: Alfonso Cuarón
Gênero: Ficção
Tempo de duração: 90 minutos
Ano de lançamento: 2013

Sinopse: Sandra Bullock interpreta a Dra. Ryan Stone, uma brilhante engenheira médica em sua primeira missão espacial, ao lado do veterano Matt Kowalsky (George Clooney) no comando de seu último voo antes da aposentadoria. Em uma operação de rotina fora da nave, o desastre acontece. A nave é destruída, deixando Stone e Kowalsky à deriva no espaço, ligados um ao outro apenas por um cabo. Um silêncio ensurdecedor diz que eles perderam qualquer contato com a Terra - e qualquer chance de resgate. O medo vira pânico, consumindo rápido o pouco oxigênio que resta. O único meio de voltar pra casa talvez seja se jogar de vez na aterrorizante vastidão do espaço.

Opinião: Assisti “Gravidade” (Gravity) em 3D. O filme proporciona a sensação de estar realmente no espaço. Contemplei o planeta Terra de um ponto de vista que eu nunca imaginei. A impressão é fascinante, intensa e arrebatadora. Dosagem perfeita do silêncio do espaço com a tensão da morte iminente. Um convite a reflexão existencial e ao aprofundamento espiritual. Algumas pessoas sentem uma espécie de claustrofobia, eu me senti extasiado. A impressionante grandeza do universo remete ao magnífico Criador; a pequenez e vulnerabilidade do ser humano; as coisas importantes que não dizemos ou fazemos; o quanto acariciamos mágoas e rancores enquanto a maravilha de “passar” por aqui é atirada em um canto qualquer, tudo isso está acumulado nas estonteantes imagens e no enredo simples. 

quinta-feira, outubro 10, 2013

Leon Morin, O Padre

Título original: Léon Morin, prêtre
Direção: Jean-Pierre Melville
Gênero: Drama/Romance
Tempo de duração: 115 minutos
Ano de lançamento: 1961
Sinopse: Uma obra do cineasta francês Jean Pierre Melville. Em Leon Morin, ele conta a história de uma viúva (Emmanuelle Riva) que vive com a sua pequena filha France e que é militante do partido comunista. Quando os alemães chegam ela envia France à fazenda e decide dirigir-se à paróquia e confrontar um padre (Jean-Paul Belmondo) com a idéia da inexistência de Deus. Contudo, a reação do padre não era aquela que ela imaginava. 

segunda-feira, outubro 07, 2013

Se Você Crê em Tudo é Porque Não Crê em Nada

Há poucos dias relia um livreto do pastor Martin Lloyd-Jones, quando deparei com a sucinta descrição da religiosidade ou, vá lá, espiritualidade, do ser humano moderno: “O tipo mais confortável de religião é sempre uma religião vaga, nebulosa e incerta... Quanto mais vaga e indefinida a sua religião, mais confortável ela será”.
Uma frase de C. S. Lewis poderia facilmente complementá-la: "Se eu fosse te recomendar uma religião para lhe fazer sentir confortável, certamente não lhe recomendaria o Cristianismo”.
Buscando mais o conforto, não hesitando em sacrificar a verdade, algumas pessoas resolvem cultuar toda e qualquer divindade: entram em cena os incensos, velas litúrgicas, ídolos orientais, gnomos, duendes e toda sorte de bugigangas. A lista de livros sagrados vai dos Vedas a Allan Kardec, mantendo um cantinho para Paulo Coelho, Deepak Chopra e Osho.
Entre o som zen no i-pod e a comida vegetariana disciplina-se a mente e o corpo. Acariciando-se nos livros de auto-ajuda, tendo “experiências” com suas cannabis, haxixe e santo daime.
Mas, a verdade está estampada em letras garrafais: se você crê em tudo é porque não crê em nada.
Jesus Cristo nega o conforto quando diz: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao pai senão por mim"; "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me"; "Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós, me odiou a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia"; "no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo".
Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia.
Lembrai-vos da palavra que vos disse: Não é o servo maior do que o seu senhor. Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa.

© Samuel Rezende

quinta-feira, outubro 03, 2013

A Graça Barata...

Muitas pessoas buscam o conforto psicológico da religião entoando o mantra “Deus é amor”. Mas Deus também é “um fogo consumidor”. A compaixão de Jesus tem sido confundida com aceitação. A maravilhosa graça se esfarela em cortesia banal. A misericórdia se confunde com complacência. Será que não estamos pregando um Cristo sem cruz?

Muitos sermões são ofertados como se a igreja fosse um restaurante que deve conquistar o paladar dos seus clientes. Não precisamos de clérigos semeando frases de autoajuda; sacerdotes motivadores da auto satisfação; animadores de auditório ocupando o púlpito ou fiéis se auto justificando no mantra do “Deus é amor”. Precisamos de homens e mulheres trilhando o caminho da transformação. Não devo aprender a amar mais a mim mesmo, mas a morrer para que Cristo viva em mim. Não quero a cumplicidade com os meus pecados, mas a luta diária para vencê-los. Não quero o cobertor elétrico sobre os meus erros, mas o inverno asfixiante derrubando todas as folhas com as quais me cubro.

Não minimizo a famosa frase “Deus é amor”. Sou totalmente dependente desse amor. Mas, eu amo Deus? Se eu continuo acariciando os meus pecados, eu não O amo. Se eu não confronto e enfrento os meus pecados, preferindo afagá-los debaixo do edredom da misericórdia, recostado no travesseiro da graça sobre o aconchegante colchão do amor de Deus, não estou demonstrando que amo a Deus, mas que utilizo o amor de Deus para justificar a minha iniquidade. A anestesia evita a dor, mas não cura a doença. É preciso um tratamento muito mais profundo.

O teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer, escreveu: “A graça barata é inimiga mortal de nossa Igreja. A nossa luta trava-se hoje em torno da Graça preciosa que é um tesouro oculto no campo, por amor do qual o homem sai e vende tudo que tem (…) o chamado de Jesus Cristo, ao ouvir do qual o discípulo larga suas redes e segue (…) o dom pelo qual se tem que orar, a porta a qual se tem que bater.”

A fé não é um produto de consumo ou um intoxicante espetáculo emocional. A fé estéril não dedilha as cordas da consciência, anuncia o perdão sem a necessidade do arrependimento e proclama um Cristo sem a cruz. Cristo não nos chamou para a estática pronúncia do “eu creio”, mas para a transformadora jornada que começa no “eu creio” e segue adiante tocando outras vidas.

© Samuel Rezende

terça-feira, outubro 01, 2013

Grand Canyon - Ansiedade de Uma Geração

Título original: Grand Canyon
Direção: Lawrence Kasdan
Gênero: Drama
Tempo de duração: 134 minutos
Ano de lançamento: 1991
Sinopse: Um grupo de cidadãos de Los Angeles tem suas vidas interligadas por crises e problemas pessoais e existenciais. Mack (Kevin Kline) é um advogado casado com Claire (Mary McDonnell), mas que tem uma relação com sua secretária Dee (Mary-Louise Parker). Um acidente o coloca em um perigoso bairro, onde por pouco não é morto. Mack é socorrido por Simon (Danny Glover), um motorista de caminhão que vive uma crise familiar. Davis (Steve Martin), amigo de Mack, é um produtor de filmes violentos que tem problemas com a brutalidade da vida real. Há ainda Jane (Alfre Woodard), melhor amiga de Dee, que tenta enfrentar a solidão imposta pela vida.

sexta-feira, setembro 27, 2013

Dependência

O texto de Lucas 18:9-14 é o manual “Treinado para pecar”. O fariseu havia sido treinado para uma justiça que escorrega para a auto-justificação. Pecado não é apenas quebrar determinadas regras, mas também tentar ser o que não somos. No pecado, o ponto fundamental é o auto-engano. O texto fala de um homem que cumpria os deveres, mandamentos e regras, e um homem de vida desregrada.
            O homem correto era do círculo religioso dos fariseus, um movimento reformador do judaísmo, que ajudou a preservar a fé durante momentos tumultuados. Eles resistiram a cultura romana e helenista, levavam a sério a Bíblia e estenderam o significado da Torá a todos os aspectos das suas vidas.             
            O fariseu era o membro que a maioria das igrejas gostaria de ter. Muitos pastores o tratariam de forma especial, pois dava o dízimo de tudo. Então, “ele se achava!”. E ousou se comparar com aquele miserável que, batendo no peito, dizia simplesmente: “Ó, Deus, tenha misericórdia de mim, pecador!”. É o que T. S. Eliot chamou: “a purificação da razão / Na terra das nossas súplicas”.
Sempre que leio este texto lembro-me do Rei Davi. Um homem que ocupava o mais alto cargo da nação, mas que conhecia o seu verdadeiro lugar na ordem das coisas: “Compadece-te de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; e, segundo a multidão das tuas misericórdias, apaga as minhas transgressões. Lava-me completamente da minha iniqüidade e purifica-me do meu pecado” (Sl. 51:1,2). Talvez o pecador também se lembrasse desse salmo.
            Então veio o golpe fatal. Jesus conclui a parábola dizendo que o pecador, e não o fariseu, foi para casa, justificado. O fariseu com sua retidão não entendeu nada sobre o efeito do pecado no coração humano. O pecador, ao reconhecer o seu lastimável estado, trilhava o caminho dos céus.
            A igreja está cheia de fariseus que medem o seu grau de santidade comparando com o dos outros. Pobres tolos! Dependência. Esta é a palavra-chave.  O verdadeiro santo sabe da enorme distância que o separa do ideal divino, por isso prostra-se humildemente, sabendo que é dependente da graça de Deus.
(Trecho do livro "Um Grito de Ausência" © de Samuel Rezende)

sexta-feira, setembro 20, 2013

O Mundo é Grande e a Salvação Espreita ao Virar a Esquina

Título original: Svetat e Golyam I Spasenie Debne Otvsyakade
Direção: Stephan Komandarev
Gênero: Drama
Tempo de duração: 105 minutos
Ano de lançamento: 2008
Sinopse: O que existe num jogo? Para um jovem rapaz que deixou seu país para trás, perdeu a memória e esqueceu seu amor, um jogo pode ser a única saída. Depois de um acidente de carro, Alex sequer se lembra de seu nome. Numa tentativa de curar essa amnésia, Bai Dan - avô de Alex - chega a Alemanha e organiza uma viagem espiritual ao passado do neto. A idéia é voltar ao país de origem do rapaz, cruzando a Europa por diversos lugares. Durante a viagem eles jogam gamão - ao mesmo tempo simples, mas o mais complexo dos jogos. É a partir desse jogo que Alex vai descobrir quem ele é.

domingo, setembro 15, 2013

O Regresso para Bountiful

Título Original: The Trip to Bountiful
Direção: Peter Masterson
Gênero: Drama
Tempo de duração: 108 minutos
Ano de lançamento: 1985
Sinopse: Carrie Watts vive o crepúsculo de sua vida presa em um apartamento em Houston, Texas, nos anos 40, junto à nora controladora e o filho resignado. Seu maior desejo - que sonha em realizar antes de morrer - é voltar a Bountiful, a pequena cidade onde cresceu, lugar ao qual costuma se referir como sua "casa". Para isso, embarcará numa viagem que marcará para sempre a sua vida. 

quarta-feira, setembro 04, 2013

A Festa de Babette

Título original: Babettes gæstebud / Babette's Feast
Direção: Gabriel Axel
Gênero: Drama
Tempo de duração: 103 minutos
Ano de lançamento: 1987
Sinopse: Duas jovens vivem com o pai, um rigoroso pastor luterano, em um pequeno vilarejo da costa dinamarquesa. Um barítono fica admirado com a voz de uma delas, e tenta convencê-la a acompanhá-lo a Paris. Alguns anos depois, bate à sua porta uma parisiense pedindo refúgio: Babette (Stéphane Audran) vem recomendada pelo agora famoso cantor de ópera, e se oferece para ser a cozinheira e faxineira da família. Muitos anos depois, ainda trabalhando na casa, ela recebe a notícia de que ganhara uma fortuna numa loteria em Paris. Para comemorar o centenário do nascimento do falecido pastor, Babette oferece um banquete aos membros da comunidade.

terça-feira, agosto 27, 2013

A Morte do Caixeiro Viajante

Título Original: Death of a Salesman
Direção: Volker Schlôndorff
Gênero: Drama
Tempo de duração: 136 minutos
Ano de lançamento: 1985
Sinopse: Willy Loman (Dustin Hoffman) passou toda sua vida acreditando que ele e sua família atingiriam o poder, seriam ricos e muito felizes. Porém, lutando dia a dia como um caixeiro viajante, ele está prestes a perder seu emprego. Willy não consegue mais pagar suas contas e começa a perder o senso de realidade derivando por coisas de seu passado e mergulhando em uma crise profunda e desesperadora. Enquanto isso, toda sua família, sua esposa Linda e seus filhos Biff e Happy, tentam lutar contra sua autodestruição e os fantasmas de seu passado. 

terça-feira, agosto 20, 2013

As Bagagens

Jesus nos convidou a deixar todas as bagagens que carregamos, em suas mãos. Não consigo perdoar uma pessoa que me ofendeu. Conte isso a Deus, entregue a sua bagagem. Meu temperamento é explosivo e não consigo mudar. Conte isso a Deus, entregue a sua bagagem. Não consigo domar a minha língua. Conte isso a Deus, entregue a sua bagagem. Não consigo controlar os meus impulsos sexuais. Conte isso a Deus, entregue a sua bagagem.
Há inúmeras bagagens, dos mais variados formatos, tamanhos e cores. Você se surpreenderá com a forma de atuação divina. Verifique constantemente se o peso daquela bagagem já não se faz sentir. Quando notar que a vida está mais leve, pode ser que se imagine portador de uma singular maturidade espiritual, que já está bastante avançado na estrada cristã e balance a cabeça quando se deparar com irmãos que não conseguem abandonar as bagagens.
Nesse momento, está na hora de contar a Deus sobre o seu orgulho e entregar mais uma bagagem.

segunda-feira, agosto 12, 2013

A Assinatura do Artista

Estremeço quando medito na grandeza do universo, ínfima amostra da grandeza de Deus. Nuvens patinam no céu, estrelas permanecem penduradas no firmamento, linhas abstratas voam nas asas das borboletas, cores faiscantes emolduram as penas dos pássaros, peixes iluminados deslizam pelos oceanos.
A beleza, criatividade e alegria de Deus esparramam-se pela natureza aguardando que o distraído ser humano possa observá-la mais de perto. Mas o entediado não tem mais tempo para as coisas comuns. Vive tão absorto nos afazeres da vida que não consegue vislumbrar as sombras da Realidade maior, a assinatura do Artista em sua obra.

Muitas pessoas se alimentam sem prestar atenção em cada sabor especifico; as músicas mais “tocadas” carregam mensagens niilistas, sexualidade e a felicidade a qualquer preço; não é a toa que os livros mais vendidos são os de autoajuda. Uma subnutrição mental, espiritual e visual paira sobre a cabeça do homem pós-moderno. As vozes do culto ao eu reverberam nas manifestações artísticas; são vozes estridentes até mesmo dentro das igrejas. 

É uma questão de observar, alertou Jesus. Ele também falou sobre o olho – o olho é o que espalha a luz pelo corpo. Quando os nossos olhos fitam as coisas erradas, a escuridão vem fazer morada em nosso ser.  Quando os nossos olhos estão afiados, somos inundados pela luz – passamos a prestar atenção nos detalhes e belezas que nos cercam.

Isso me faz lembrar do filme “Além das Nuvens” do diretor Michelangelo Antonioni. Num bar em Paris durante o dia, uma jovem se aproxima de um homem de meia-idade e diz que tinha lido uma coisa fantástica numa revista e precisava falar disso com alguém. Era o seguinte: no México, cientistas contrataram carregadores para levá-los ao cume da montanha de uma cidade inca. A certa altura, os carregadores não quiseram mais prosseguir. Os cientistas, irritados, não sabiam mais como fazê-los seguir adiante. Não entendiam os motivos de uma parada tão prolongada.


Após algumas horas, os carregadores recomeçaram a andar e, finalmente, o chefe deles deu uma explicação: eles tinham corrido muito e estavam esperando suas almas chegarem. A moça que contou esta história comentou: “É fantástico, porque também corremos atrás de nossas coisas e perdemos nossas almas. Devíamos esperar”.

Realmente, corremos atrás de tantas coisas que nossas almas não conseguem enxergar a estonteante beleza do universo.. 

(Trecho do livro "Um Grito de Ausência" © de Samuel Rezende)

segunda-feira, agosto 05, 2013

A Sopa Populista

      Temo que estejamos vendendo o Evangelho por um prato de sopa populista. Jesus morreu porque agiu como o Filho de Deus encarnado, falou como o Filho de Deus encarnado e não negou a acusação de que o mundo o odiava por ser o Filho de Deus encarnado.
      Vendemos o Evangelho quando anunciamos o que agrada a multidão: o cristo revolucionário, o cristo da prosperidade, o cristo que não exige compromissos, o cristo que não se importa com nada conquanto o indivíduo esteja feliz. O cristo da cultura é insípido, conivente, bonachão.
            Onde está o Cristo que vira a mesa dos vendilhões do templo, o Cristo que repudia a mera opinião a seu respeito, o Cristo que alerta dizendo que se “alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo”.
          Muitas pessoas aceitam o cristo que lhes apetece, o cristo de clichês humanistas, aparando as garras do Leão de Judá. Entretanto, esse cristo não é o Cristo do Evangelho. Esse mero cristo lhe conduzirá a um mero céu, mas não a Eternidade.
            Sinto muito, mas se o Cristo que cremos e anunciamos não nos torna confrontadores da cultura dominante e, por consequência, uma persona non grata, há que se analisar se este é o Cristo bíblico: “Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós, me odiou a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia... Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa”.
         Não estou defendendo a imagem de um cristão soturno balançando o sino de alerta contra a decadência cultural. Mas também não podemos nos contentar com o mero crítico da igreja e o cristão que recende legalismo; o filósofo que concluiu que todos os problemas se resumem a epistemologia e o cristão liberal cujo evangelho se resume a tolerância e diálogo; o cristão pacificador que tenta solucionar todos os conflitos e o revisionista tentando adaptar o Evangelho aos padrões de uma sociedade em decomposição.
        Quem foi que disse que seguir a Cristo seria algo fácil? Se uma pessoa imagina que o cristianismo não passa de doce de leite ou coalhada com mel, simplesmente não entendeu o que é cristianismo. Jesus aconselhou: “Sede simples como as pombas, e prudentes como as serpentes”. Acontece que ao mesmo tempo em que há uma dificuldade explicita também há uma facilidade implícita: o próprio Deus está ao nosso lado nos sustentando no caminho.
           Devemos buscar o ponto de equilíbrio notando que há muita coisa para se corrigir na igreja, mas também há muito a se aprender nos relacionamentos com outros cristãos; que a cultura é anticristã e não devemos nos acomodar a ela, mas que podemos extrair pedras preciosas no meio do cascalho; que há muitos motivos para se lamentar, mas também há inúmeros momentos para se desfrutar a beleza do mundo.
            O escândalo do cristianismo é que existe apenas um caminho. A boa notícia é que, apesar de toda a nossa teimosia, egoísmo e pecado, ainda há um caminho.

(Trecho do livro “Um Grito de Ausência” © de Samuel Rezende)