Sexta-feira, Novembro 28, 2008

Fragmentos


Tenho uma fé lúcida. Aceito a dúvida como um sinal da fé. Se a fé fosse o sinal de uma certeza, seria fácil o caminho da eternidade. A fé é um ato radical que não se confina no quotidiano. É fácil se entregar à rotina ou aos rituais. O difícil é cultivar esse abandono ao poder do Espírito.
A escritora Flannery O’Connor disse que “Chega-se a uma razoável certeza a respeito do caminho a trilhar, mas é um percurso no escuro. Não conte que a fé tornará as coisas mais claras. Trata-se de confiança, não de certeza”.
O pensamento é um poderoso e precioso poder, mas é um horizonte não uma fundação. Não possui solidez para alicerçar a alma, mas alarga a visão. Amplia o nosso alcance mais do que o fixa. Amplifica o problema, sem resolvê-lo. Fé não é um asilo para os que tem preguiça de pensar.
Dostoiévski dizia que “Não é como criança que creio em Jesus Cristo e o confesso. Meus hosanas nasceram de uma fornalha de dúvidas”.
Frederick Buechner dizia que as “dúvidas são as formigas nas calças da fé. Mantêm-na acordadas e em movimento”.
Como disse o poeta Rainer Maria Rilke, é melhor viver com uma pergunta embaraçosa do que negar qualquer uma das realidades dentro dela.
Ao contrário de outros livros proféticos, Habacuque é mais uma oração do que uma profecia. O preocupado profeta ousa dialogar com Deus, enfrentando-o com perguntas que parecem desafiar o amor de Deus. Costurando perguntas difíceis e respostas divinas, o método foi denominado “rabínico” ou “socrático”, e foi usado por Jesus com muita eficiência (Mt. 24:42). A fé de Habacuque é tão profunda que ele pode expressar honestamente as suas dúvidas e ficar satisfeito quando o Senhor responde com novos apelos à fé.
Mesmo através da lente grossa do racionalismo e do materialismo, podemos exercitar o olhar da fé. O apóstolo Paulo alertou que o olhar de fé de Abraão foi considerado como justiça. O olhar o justificou.
O discurso de Deus para aquela família estéril é um convite ao abandono. Sair do presumível mundo das normas e segurança. A ordem é concisa e peremptória. Ela não se baseia na lei ou disciplina, mas na promessa. Partir é abandonar a esterilidade. A fé repousa na contradição: ficar em segurança é permanecer estéril, correr o risco é ter esperança. A fé implica em uma jornada rumo ao desconhecido. É preciso dar o primeiro passo, sem saber para onde estavam indo, quando chegariam lá ou como saber que já chegaram. A fé não é a posse do mapa, mas a viagem.
A jornada teve várias etapas. Eu gosto de pensar nisso. A fé como verbo ao invés de substantivo, um processo em vez de uma posse. Eu tenho a fé que meu amigo é meu amigo. É possível o engano. É possível que ele tenha outra intenção além da simples amizade. Mas as nossas conversas, os conselhos, o silêncio sem embaraço, me leva a crer na sua amizade. Eu não posso prová-la, mas a experimento.
Fé inclui dúvida. Paul Tillich dizia que a dúvida não é o oposto da fé, e sim um elemento.
Fé é caminhar, um passo de cada vez. Às vezes parece uma rodovia devidamente sinalizada, em outras, é uma trilha cheia de folhas, galhos e armadilhas. A fé é uma resposta a um convite.
Como filhos da modernidade, esse parece um conceito curioso. Estamos habituados a pensar em nossas próprias realizações, as nossas próprias agendas, os nossos próprios objetivos. A história de fé de Abraão é um lembrete útil de que não somos arquitetos da nossa própria vida ou do mundo. Nós somos herdeiros de uma promessa, e não pode haver promessa sem que haja um autor. A promessa de segurança, bem-estar, prosperidade e proeminência são dons a ser colhidos durante e ao fim da viagem. É o que torna a viagem sagrada e não apenas um vadiar através dos dias.
Crença centra-se em declarações. Fé implica em ação.
Thomas Merton falou da “possibilidade de um diálogo ininterrupto com Deus”. Um diálogo de amor e de escolha. Um diálogo de confiança e esperança. Um diálogo que permita soltar-se como um falcão nas correntes de ar.
O antônimo de fé não é dúvida, mas medo.
(Trecho extraído do livro "A sobrevivência da fé" de Samuel Rezende)

Terça-feira, Janeiro 08, 2008

UM 2008 MAIS DO QUE SIGNIFICANTE



Para W. H. Auden, a nossa ordinária existência é chacoalhada na época de Natal: “a festa de Natal transforma a memória”. O interessante no seu poema não é que ele fala dos eventos da natividade mas por prolongar o impacto da encarnação em um mundanismo diário.
Para Auden o Natal é mais do que o ápice de uma comemoração, é um lembrete anual de que Deus agiu e está agindo “para redimir a insignificância”, a lama monótona de nossas rotinas.
Os críticos que bajulavam Auden, criticaram o seu retorno à igreja. Diziam que era um ato de covardia intelectual e desprezaram-no. Os intelectuais liberais que o aplaudiram quando dissecou a passionalidade dos traumas sociais dos anos 30, agora bufavam com seu novo estilo divertido, frívolo e irrelevante.
Um artigo escarnecedor perguntava: “O que terá acontecido com Wystan?”
O certo é que este grande poeta não passou em branco. Neste poema ele descreve o fervor religioso do feriado e a depressão pós-natal:
As ruas são muito mais estreitas do que nós recordamos;
Nós tínhamo-nos esquecido
O escritório era tão comprimido como este.
Àqueles que viram
A criança, de qualquer modo não ofuscante, incredulamente,
Tempo que é, em um sentido, o tempo tentando de tudo.
Para Auden, a encarnação infunde significado a existência histórica. O hoje foi redimido, e a tarefa dos cristãos é participar deste trabalho lento:
Entrementes
Há contas a ser pagas, máquinas para serem consertadas,
Verbos irregulares a aprender, o Tempo redime
A insignificância.
Estava olhando o quadro “A queda de Ícaro” de Pieter Brueghel, a representação mais inesperada deste mito. O mar, a natureza e a cidade dominam a cena. Destaca-se um lavrador indiferente, um pastor a olhar para o céu, mas para o lado errado; atrás dele, na água, mas quase sem se ver, o Ícaro caído. O quadro parece querer ignorar a presença de Ícaro: é um ponto no canto inferior direito (como uma assinatura), caído na água, de pernas para o ar. A insignificância de Ícaro contém um sentido filosófico-moral. As pessoas nem notaram o acontecimento.
Inúmeras estimativas foram feitas, tentando datar o universo. O cristão afirma que em um momento especial, antes do tempo, Deus num rasgo de criatividade, chamou a existência – águas, terra, plantas, animais e seres humanos – não em dias comuns. A Bíblia é pródiga em declarações de que o tempo de Deus não é o nosso tempo. Mil anos não é mais do que um piscar de olhos a luz de Deus.
Quando Deus criou o universo, foi como se uma flor minúscula desabrochasse em grandes nuvens de gás de hidrogênio e galáxias rodopiando. Deus criou os sistemas solares e planetas, e este planeta no qual caminho enquanto a terra faz a sua graciosa dança em torno do sol.
E Deus examinou a sua intrincada criação e considerou-a boa. Cada partícula subatômica da criação foi examinada pelo Criador. De uma partícula destinada a viver alguns segundos a uma galáxia com uma extensão de vida de bilhões de anos.
Houve um momento quando todas as estrelas prenderam a respiração, as galáxias pausaram a sua dança por uma fração de segundos, e a Palavra que as tinha chamado à existência, foi silenciosamente aninhar-se no ventre de uma jovem. E o universo respirou novamente.
Um poder além da imaginação entregou-se a impotência de uma criança em gestação, informe, nadando no grande oceano do líquido amniótico, cego, surdo e mudo. No ritmo lento do crescimento de um embrião humano este poder aguardou nove meses para nascer.
Jesus Cristo, a segunda pessoa da trindade, criador do universo, visitava este pequeno planeta, limitado ao tempo, espaço e ao universo humano.
O Verbo-Criança, a palavra divina fez-se carne. Devemos ser gratos por este presente sagrado. Para Auden a doutrina da encarnação significa que quando a palavra fez estadia entre nós, os pontos fracos e os limites do mundo adquiriram uma cor inesperada. No coração, o cristianismo é uma vigorosa religião materialista, porque afirma que o sagrado entrou no mundano.
A palavra divina introduziu-se furtivamente no mundo, como um bebê em Belém. Depois desse acontecimento surpreendente, devemos permanecer abertos à possibilidades, surpresas e maravilhas.
A principal crise do nosso tempo não é energética ou ecológica, mas uma crise espiritual. A aquiescência da cultura ocidental para o materialismo resultou em uma profunda negligência da vida transcendente que ironiza a adoração, a encarnação e a tentativa de manter um padrão moral.
Não há como ressacralizar o cosmos. Mas podemos procurar pistas nas experiências comuns da vida. Há sinais da transcendência em nosso desejo de ordem, no jogo do amor, no uso do humor e em nossas experiências de esperança e desespero.
O sofrimento pode ser uma ferramenta para avançar a um nível mais profundo de fé, consciência e introspecção. A vida contemplativa pode começar em uma experiência de dor. Para Evelyn Underhill, o primeiro estágio é a conversão. O teólogo Paul Tilich dizia que estamos estagnados até que em um esforço crítico confrontamos o vazio e o silêncio. Somente abraçando a própria inadequação experimentamos o crescimento e uma nova vida.
Gosto de Kierkegaard. Conheci os seus textos no período em que li J. D. Salinger e seu cultuado personagem rebelde Holden Caufield. As arremetidas espirituais e intelectuais de Kierkegaard carregam o cheiro da rebelião da juventude, um noivado com a recusa radical de encarar o mundo como ele é.
O salto da fé de Kierkegaard introduz a transcendência do amor divino. Ele não traz apenas a lei moral para a terra, mas, paradoxalmente, introduz uma demanda para amar além da possibilidade humana. Nós somos incapazes de satisfazer a exigência da lei moral. Mas somos incapazes de viver sem ela. Se optarmos pela esfera ética da existência, vivendo como um asceta, experimentamos o sabor do desespero.
No cristianismo o indivíduo atinge a intensa e profunda reflexão: “ser cristão é uma determinação dialética, pois o Indivíduo se torna cristão pela conversão. A fé é enraizada na infinita dialética da incerteza”.
O mundo moderno tenta isolar a dor, anestesiar o sentimento e finda provocando mais sofrimento.
A vida é cheia de um sol radiante, de tempestades incríveis e o que vemos pela rua é gente correndo, gente com pressa porque é sempre ali na frente que está a nossa solução. O que precisamos é morar, comer e consumir. E para isso temos que estudar e trabalhar. Uma equação bastante simples e lógica. Um bebê não exporia melhor. Temos simplesmente que resolver o rumo que desejamos. Desejamos estar nesse mercado competitivo? Desejamos estar de gravata e com o cartão de crédito sempre na iminência de estourar?
Vejamos uma outra pessoa que vá na contramão de tudo, que resolva, por exemplo, recolher-se a um mosteiro e dedicar sua vida a Deus. Não me parece que duvidemos da sanidade de um frade ou de um pastor. Parece que está tudo certo, tecnicamente com ele, esse homem igual aos outros apenas escolheu um caminho que não é o da maioria, mas é perfeitamente aceito.
William James, norte-americano que foi um dos grandes fundadores da moderna psicologia científica, afirmava, e cito de memória, que “não é psicologicamente possível ao homem viver sem acreditar na sua própria imortalidade”.
“No fundo, o que se oculta sob toda esta problemática é o problema da existência da alma: nós temos ou não temos uma alma? Mas não é apenas o problema da existência da alma: é também o problema das relações entre a consciência, a mente e o cérebro/corpo”.
“Desenvolvendo uma comparação sugerida por Rupert Sheldrake... ninguém se lembraria de supor que a rádio e os seus mecanismos internos são a fonte das vozes e das músicas que dele saem; ninguém se lembraria de supor que a televisão e os seus mecanismos internos são a fonte das imagens e dos filmes que dela saem; mas é curioso verificar como tão facilmente cremos que o cérebro e os seus mecanismos internos são a fonte da consciência! Mas a verdade é que a rádio, a televisão e o cérebro são apenas aparelhos de recepção e de emissão: de sons, de imagens e sons, e da consciência”.
Muitas vezes nos fechamos em nosso viver hedonista, circunscritos que aos nossos desejos, à vida que levamos, e que para nós, por ser tudo o que temos, em parte limita o mais que poderíamos ser, ou mesmo ter, no que diz respeito às experiências que viríamos a acumular. Quando nada interfere, também pouca coisa muda. Quando só há ruídos, o silêncio não é um dado de realidade, porque já está tão internalizado em nós, que apenas o barulho aparenta ter força de verdade.
Por que os salmos são os livros mais lidos da Bíblia? Creio que uma das pistas é que eles contêm toda a experiência humana, do desespero à alegria, da gratidão à raiva, da celebração a beleza da natureza a perguntas sem respostas sobre a violência. As pessoas gostam de saber que há três mil anos alguém estava sentindo a mesma coisa e orando. A vulnerabilidade é exposta e permite afastar a cortina e vislumbrar que Deus está ali.
Curiosamente, os salmos me levam a aturar a igreja, esse amontoado de cantores ruins que fazem um ruído maior do que a soma de suas vozes débeis. Em um culto de adoração eu posso sentir – a despeito desse aspecto – a presença de Deus.
Apesar do abismo, como diria Emily Dickinson, da solidão, dos momentos de isolamento e desespero, e da desafinação vocal, há o sentimento comum e a memória universal. Então acrescento a lista inicial, o calafrio a percorrer meu corpo, as lágrimas a brotar nos olhos e a estranha sensação de invadir um lugar sagrado.

(Trecho do livro “Relíquias de uma terra estranha” de Samuel Rezende)

Sábado, Março 03, 2007

Seguindo as pegadas

G. M. Hopkins viveu a tediosa vida de jesuíta envolto em dúvidas e atormentado por uma doença crônica. Beethoven compôs uma de suas maiores obras após sua surdez. Walter Scott escreveu suas famosas obras após haver sido chutado por um cavalo e estar confinado em sua casa durante vários meses. Mark Twain foi companheiro da morte. Amigos de infância, a irmã, dois irmãos, um filho e duas filhas morreram. Chesterton caminhou à beira do abismo, quando tinha 18 anos, experimentando trauma psicológico e espiritual, vítima da insanidade e pessimismo de sua época. Shakespeare presenciou a morte de sua filha. Victor Hugo presenciou a morte de duas filhas e a loucura de uma outra. Gauguin pintou grandes obras convivendo com a sífilis. Dostoiévski viveu à beira do desespero por causa de dívidas e da epilepsia. Isak Dinesen escreveu belos contos enquanto sofria com as dores de estômago e a fraqueza das pernas, conseqüência da sífilis contraída do seu marido, Barão Blixen. Eles caminharam na estrada do sofrimento.
Não devemos nos curvar ao sofrimento, mas resistir para contar sobre ele. Estas pessoas o experimentaram, e redescobriram entre as ruínas da dor, a esperança. Eles, como eu, defrontaram-se com a compaixão de Cristo – Aquele que sofre conosco. Apenas Mark Twain sucumbiu. A morte da terceira criança foi mais que a sua fé poderia agüentar.
A minha vida é pacata, despida de aventuras. Muitas pessoas viajam e voltam contando as histórias dos lugares que viram e das pessoas que conheceram. As minhas aventuras resumem-se as poucas viagens que fiz, a leitura de biografias e livros e a paixão por filmes.
Caminhando nestas estradas, cheguei a conclusão que há duas formas de relacionamento com a dor. Há pessoas que enterram as suas dores. O efeito é destrutivo. As pessoas que conheço e que se portam dessa forma costumam perder a compaixão. Um exemplo é o caráter trágico da Senhorita Havisham, personagem de Charles Dickens em “Grandes Esperanças”. Abandonada no dia do seu casamento, gasta os seus dias vagando entre as lembranças: a casa, o bolo, o vestido de casamento, as flores murchas, o relógio parado; prisioneira do passado. Dickens conclui: “Também sabia perfeitamente que ao rejeitar a luz do sol tinha rejeitado muito mais do que a luz; que no refúgio em que se havia enclausurado, se havia privado de mil influências naturais e salutares; que seu espírito sempre mantido na solidão veio a sofrer com isso, como sempre acontece aos espíritos que alteram a ordem estabelecida pelo Criador. No entanto, vendo como estava sendo castigada, vendo a sua infelicidade, a sua incapacidade profunda de viver no mundo em que se achava, vendo-a presa da vaidade do sofrimento, vaidade que se tornara nela uma monomania... e outras tantas vaidades monstruosas que foram a maldição de muitos neste mundo, vendo-a tão desgraçada, poderia eu olhá-la sem comiseração?”. A segunda forma é a que procuro vivenciar. Conheço a espada da dor, e como sobrevivente, não procuro esquecê-la, escondê-la ou fingir que nada aconteceu.
Jamais procurei romper os vínculos com o sofrimento. Talvez seja o Samuel daqueles tempos o que mais esteve vivo. É no sofrimento que nos aproximamos da essência que nos une a outros seres humanos. É no momento da dor que a porta abre-se e compreendemos a dor das outras pessoas. O sofrimento nos torna cientes de nossa pequenez, esmaga a auto suficiência, e nos torna mais sensível ao poder de Deus.
A dor pode transformar-se em tesouro quando nós a utilizamos como uma estrada de compaixão, que permite levar ânimo e auxílio a outras pessoas. Compartilhando as experiências, alegrias e tristezas, carregando a cruz um do outro. Assim estaremos imitando Jesus, pois da dor inescrutável da cruz surgiu a esperança da humanidade.
Escrevendo sobre a dor, eu penso na áspera parábola dos talentos. Jesus contou a estória do homem que antes de viajar, deu a três empregados, uma certa quantia: a um deu cinco, a outro dois e a outro um. Quando retornou, “aproximando-se o que recebera cinco talentos, entregou outros cinco, dizendo: Senhor, confiaste-me cinco talentos; eis aqui outros cinco talentos que ganhei”. O senhor o elogia, chamando-o de “bom e fiel” e convida-o a participar da sua alegria. O homem que recebera dois talentos fez outros dois e recebe o mesmo elogio. Mas, o homem que recebeu um talento desculpa-se dizendo: “eu estava receoso e escondi na terra teu talento; aqui tens o que é teu”. O senhor o repreende: “Servo mau e negligente... tirai-lhe, pois, o talento e dai-o ao que tem dez... E o servo inútil, lançai-o para fora, nas trevas” (Mt. 25:14-30).
O homem de um talento representa alguém que enterrou a dor, ocultando-a de tal forma que ela não produziu frutos para a vida. As trevas para as quais foi arremessado não significam, para mim, uma punição, mas uma conseqüência inevitável da decisão de enterrar a sua vida. Se você enterrar a sua vida, você não a abandona. Você está sozinho, na obscuridade.
Quando tentamos ocultar a dor, impedimos o crescimento. Diminuímos. Tornamo-nos pigmeus da fé.
Há os que negociaram com seus talentos. Negociaram com suas vidas. Somos comerciantes da vida: eu necessito de você; você necessita de mim. Essa é o convite do senhor, a participação na alegria de mais relacionamentos.
A ausência de Deus é a demonstração deste amor, esta devoção ao que os olhos não podem ver. Conseguir oferecer este amor, focalizando toda a sua atenção e superar a distância, deve ser o nosso maior desejo.

(Trecho do livro "Náufragos da fé" de Samuel Rezende)

Segunda-feira, Agosto 29, 2005

O sofrimento: Pistas no livro de Jó

A melhor forma de compreendermos o livro de Jó é analisando como um filme, do qual vimos o trailer e conhecemos o enredo. Mas o ator principal não sabe o que está acontecendo, por que e onde o conduzirá tantas mazelas. O comediante Jim Carrey fez um filme – O show de Truman – no qual o personagem que representa, é acompanhado ao vivo pelo país inteiro desde o momento de seu nascimento. Ele vive em uma cidade fictícia, com moradores, que na verdade, são atores, e tudo faz parte de um grande cenário, até a praia com seu pôr-do-sol deslumbrante é artificial. Mas ele não sabe e leva sua vida comum acompanhado por câmeras ocultas, até mesmo no banheiro. Enquanto o país inteiro cruza os dedos e vibra com seus bons momentos e chora com as suas decepções, torcendo para que seus passos sejam conduzidos a um final feliz. O livro de Jó tem um aspecto semelhante.
Em Jó, vemos satanás satirizando a lealdade, insinuando que Deus é indigno de amor, e, segundo satã, Deus suborna as pessoas. Satanás acusou Deus, que Jó somente o seguia porque era abençoado. As pessoas amam a Deus, disse certa vez um sacerdote, “assim como o camponês ama sua vaca, pela manteiga e pelo queijo que ela fornece”. Se as suspeitas de Satanás fossem confirmadas, ele encontraria a justificação para sua própria queda.
Deus aposta no poder do amor. Por natureza, o amor é um frágil poder, consiste em cativar o coração do outro e aguardar uma resposta recíproca de amor e fidelidade.
Em Jó, a guerra espiritual não assume os gigantescos contornos que os evangélicos modernos abraçam. Não é uma disputa titânica entre duas forças que se digladiam tentando provar quem é o mais forte. C. S. Lewis costumava dizer que não havia uma guerra espiritual, mas sim uma rebelião interna e o rebelde encontra-se sob controle. É um conflito entre um Deus que ama incondicionalmente e um acusador que utiliza os recursos da violência para provar a impossibilidade da recíproca desse amor.
Satanás utiliza-se da violência, destruição, sofrimento e dor, fontes nas quais os homens embebedaram-se durante os séculos; basta olhar nos arsenais de armas destruidoras: guerra, assassinato, terrorismo, tortura.
A questão foi levantada, como Jó se comportaria se a miséria adentrasse sua vida? Deus aceitou o desafio e testou a teoria de satanás, entregando o poder de decisão às reações de Jó. As comportas da calamidade foram abertas.
A fé é um produto do ambiente, da cultura, e se evapora frente às adversidades? É possível crer em Deus quando ele parece nos ignorar e, mais do que isto nos esmagar?
Nesse instante entra em cena os amigos de Jô – abutres humanos. Os “abutres” no geral dão respostas simplistas, às pessoas que sofrem de problemas emocionais; respostas que só servem para lançá-las num abismo profundo de desespero.
Os argumentos dos amigos de Jó são sempre os mesmos. – Jó, Deus está lhe dizendo algo. Deve haver uma razão para seu sofrimento. Ele deve estar zangado com algum pecado seu. Confesse sua falha, e Deus operará poderosamente. A outra opção partiu da esposa de Jó: “amaldiçoa a Deus e morre”.
No tempo de Jesus, os fariseus ensinavam que “Não há morte sem pecado, e não há sofrimento sem iniqüidade”; como os amigos de Jó, eles tinham visões do castigo divino nos desastres naturais, nos defeitos de nascença e nas doenças crônicas. Embriagados desse tradicionalismo, afirmavam que talvez o homem houvesse cometido algum pecado in útero.
Se Jó terminou seu livro como o herói, por que os cristãos utilizam mais as palavras dos amigos de Jó, que foram considerados vilões? O padre de “A peste”, de Camus, portava-se como os amigos de Jó, afirmando que a praga que se alastrava indiscriminadamente era um castigo divino.
Os abutres alegam ter palavras de conhecimento bem ao estilo Elifaz, que utiliza-se de uma “visão misteriosa” proporcionada por um “espírito” que lhe concedeu sua base de argumentação. Estes pseudo-espirituais, bastante semelhante aos modernos, são repreendidos por Deus: “A minha ira se acendeu contra ti (Elifaz), e contra os teus dois amigos, porque não dissestes de mim o que era reto, como o meu servo Jó”.
Jó não cede a dogmas religiosos e como Philip Yancey escreveu, torna-se “o primeiro protestante”. Os mais ortodoxos religiosos admitem que Jó exige uma explicação da parte de Deus de uma forma até então inédita. Jó desafiou os argumentos destilados. O apóstolo Paulo desafiou o Sinédrio. Lutero desafiou a autoridade de uma igreja arrogante.
Jó rejeitava as tolas opiniões. Ele estava consciente que não havia correspondência entre sua situação e a questão de justiça. Beirando o desespero, Jó chegou a visualizar um Deus sádico, que ri “do desespero do inocente” que “cobre o rosto” (Jó 9:23,24) para não presenciar julgamentos injustos ignorando o clamor como se nada estivesse acontecendo.
Para C. S. Lewis: “O homem antigo vinha a Deus (ou até mesmo aos deuses) como o acusado ao juiz. No caso do homem de hoje, os papéis se inverteram. Ele é o juiz; Deus está no banco dos réus. Ele é um juiz bem generoso: se Deus tiver uma boa razão em sua defesa para ser o Deus que permite a guerra, a pobreza e a doença, estará então disposto a ouvi-la. O julgamento talvez até acabe na absolvição de Deus”.
Jó coloca Deus no banco dos réus, irado, satírico, sentindo-se traído, desabafa de forma implacável. Acusa Deus de praticar atos injustos contra um inocente, vagueia próximo à blasfêmia.
“Na sua ira ele me despedaça e me persegue e range os dentes contra mim; o meu adversário aguça os olhos contra mim” (16:9).
“Chamo a ti, ó Deus, mas não me respondes; ponho-me de pé, mas para mim não atentas. Tornas-te cruel para comigo; com a força da tua mão me atacas. Contudo, aguardando eu o bem, me sobreveio o mal; esperando eu a luz, veio a escuridão. A agitação das minhas entranhas não cessa; os dias da aflição me sobrevêm” (30:20,21,26,27).
Quando a morte não vem e Jó sente que as suas orações são gritos sem esperança lançados ao vento, ele pede um mediador, “que ponha a mão sobre nós”. Os seus pedidos (9:33; 16:19-21) mais tarde são atendidos de forma marcante em Jesus, o mediador entre Deus e o homem.
A tribulação de Jó é uma forma dolorosa e crucial de testar a liberdade humana. Enquanto nossos cientistas afirmam que somos apenas e tão somente, uma combinação de DNA, cultura, instinto e leis impessoais, uma pergunta nos acompanha do berço à sepultura: O que fazemos tem algum significado? Desempenhamos algum papel no drama universal? Quem somos, de onde viemos e para onde vamos?
Clamamos por justiça, para que cada pessoa seja recompensada com aquilo que merece. Mas se o mundo fosse constituído de retribuição obrigatória, como a dor que acompanha o ato de colocar a mão no fogo, como seria, então, se houvesse punição a cada pecado cometido? Certo escritor disse que “Se Deus reagisse as coisas erradas lançando raios, nosso planeta piscaria como uma árvore de natal”.
Saberíamos o que Deus espera de nós. Como uma foca de aquário, cuja obediência é recompensada com um suculento peixe. Que mundo maravilhoso seria. Mas há uma falha gritante neste mundo organizado e perfeito. Não é a forma que Deus age, pois não haveria liberdade. A obediência seria automatizada pelos benefícios imediatos que viriam dela. A bondade seria contaminada pelos interesses mesquinhos e egoístas de uma recompensa imediata. Seríamos programados para amar a Deus, e inviabilizaria a escolha deliberada que o livre-arbítrio proporciona mesmo combatendo com atrações incomensuráveis.
Deus exulta com o amor exercido de forma livre. A fidelidade ao Criador deve sobreviver aos bombardeios constantes da falta de orações respondidas.
O livro de Jó exala atualidade pelos seus poros, porque também não conseguimos entender este quebra-cabeça chamado vida. Buscamos respostas em um planeta atormentado por atrocidades diárias, onde crianças são espancadas até a morte, idosos são abandonados nas portas dos asilos por seus familiares, jovens têm sua vida ceifada de forma abrupta no esplendor de sua juventude, crianças morrem de fome enquanto políticos corruptos sugam o dinheiro do povo, onde gasta-se bilhões produzindo armamentos, onde traficantes e chefes do crime organizado lucram com o sangue dos nossos jovens, onde milionários constroem mansões – aqui no Brasil, com duas piscinas, uma delas com água mineral.
O desenho que é formado, com dois mundos, visível e invisível, no qual um mundo afeta o outro, encontra-se por toda a Bíblia. O nascimento de um bebê estremece o universo (Ap. 12), uma oração e sua resposta provocam um duro combate (Dn. 10), o arrependimento de um pecador faz com que anjos dêem pulos eufóricos na arquibancada celestial (Lc. 15), o êxito missionário afeta os planos de satanás e aciona a catapulta que o arremessa como um relâmpago do céu (Lc. 10). Ações comuns do mundo visível transbordam seu efeito sobre o mundo invisível.
Daniel esmurrou o chão, orou e chorou. Abriu mão de um cardápio especial. Afastou-se de vinho e carne, deixou os perfumes de lado, só faltou fazer greve de fome. Vinte e um longos dias arrastaram-se, sem respostas. Até receber uma visita especial. Um anjo com olhos de 1.000 volts e o rosto com o brilho do sol, cruzou em seu caminho, à margem de um rio. Daniel perdeu a respiração, mudou de cor sem necessidade de maquiagem (Dn. 10:8
A companhia inesperada explicou que o atraso não era um problema na condução, ele fora enviado quando a primeira oração adentrou os recintos celestes, mas um ataque violento do “príncipe do reino da Pérsia” o encurralou, sendo necessário a chegada de reforços angélicos comandados por Miguel, que o ajudaram a superar as linhas adversárias.
Jó e Daniel desempenharam papéis decisivos no confronto entre o bem e o mal, embora não tivessem consciência do fato. Para ambos, o clamor a Deus pode ter parecido fútil, e Deus, estaria muito distante, cuidando de uma galáxia bebê. Mas basta uma olhada atrás da cortina, para que a situação seja esclarecida, o palco visível não representa todo o espetáculo da criação.
Muitos cristãos tentam evitar a cena embaraçosa do capítulo 1 de Jó. Mas nenhum livro fala de forma mais eloqüente, que a fé de um único ser humano faz diferença.
Somos as jóias que Deus expõe em sua joalheria celestial, para ser perscrutadas pelos poderes invisíveis. Tendo uma imagem deste tipo em vista, Paulo escreveu que: “nos tornamos espetáculo ao mundo, tantos aos anjos, como aos homens” (I Cor. 4:9). Nós também participamos de uma guerra cósmica, onde milhares de espectadores invisíveis assistem o confronto no ringue chamado terra.
Em meio ao sofrimento o que Deus está querendo dizer? Não adianta nos torturarmos buscando respostas. Ela pode ser que vivemos num mundo de leis fixas. Talvez, Deus esteja falando-nos através e apesar da dor. Talvez esteja acendendo o fogo de nossa consciência para que o busquemos.
É incompreensível desenharmos com nitidez as regras que conduzem as ações de um Deus que vive fora do tempo, e ocasionalmente faz uma incursão dentro do tempo. Sinto-me confuso com a palavra “onisciência”, se Deus sabia que Jó permaneceria fiel, a aposta teve alguma validade? Quando Abrãao recebeu ordem para sacrificar Isaque, Deus já sabia qual seria a sua reação. Para que torturar o pobre Abrãao?
Mas Abrãao não tinha conhecimento da capacidade de obediência que possuía. O conhecimento divino de todas as coisas implicaria que as coisas conhecidas não precisariam existir? Se isto ocorresse exterminaríamos a própria existência.
Talvez a mensagem de Jó e Abrãao, é que não podemos raciocinar de forma simplista quando Deus está em cena. A palavra onisciência estampa a imagem de alguém preso dentro do tempo. Deus não enxerga numa seqüência progressiva, como o alfabeto: A, B, C ... ele não faz “previsões” sobre o que acontecerá, ele nos acompanha fazendo-as, o eterno presente ancorado em suas mãos. Nós, presos no tempo e seus frágeis padrões analíticos, não conseguimos absorver a dimensão que nos é mostrada. Um dia veremos as catástrofes que presenciamos, sob outra ótica.
As discussões teológicas e filosóficas da igreja sobre onisciência, onipotência, onipresença, predestinação etc., demonstram nossas desajeitadas maneiras de compreender aquilo, que para nós, só faz sentido quando adaptado ao nosso campo temporal. Diversos trechos bíblicos fornecem pistas quanto ao ponto de vista “atemporal”. Diz que Cristo foi “conhecido... antes da fundação do mundo”, quando então não havia necessidade de redenção. Diz que a vida eterna “nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos”. O linguajar nos leva a conclusão que parte de um Deus que vive fora do tempo. Que acompanhava o desenrolar de um planeta caído que sequer existia.
Finalmente, em completo desespero, Jó reduz as suas exigências a um só pedido, que mantém até o fim. Ele pede uma explicação do próprio Deus (13:3;31.35). Ele quer uma audiência no tribunal, uma oportunidade para ouvir Deus se defender.
Esse último pedido deixa os amigos de Jó irados. Que direito tem um ser humano insignificante, de pedir contas a Deus? Como é que um homem, “que é uma larva, e o filho do homem, que é um verme” (25.6) ter tanta ousadia?
A resposta veio de forma nada sutil; Deus troveja de forma retumbante: “Já que você não consegue fazer o sol se levantar a cada dia, nem preparar o caminho para que o relâmpago resplandeça, ou como traçar limites para as ondas do mar, e a formação das gotas do orvalho, ou mesmo projetar a força do hipopótamo. Apenas cale-se e ouça”. Deus mencionou o sistema solar, constelações, tempestades, animais selvagens e a insignificância do conhecimento humano.
Frederick Buechner resume bem a fala de Deus: “Deus não explica; explode. Pergunta a Jó quem ele pensa que é. Ele diz que tentar explicar o tipo de coisas que Jó quer saber, seria como tentar explicar Einstein a um insignificante marisco ... Deus não revela seu magnífico projeto. Ele revela a si próprio”. Jó rendeu-se de cara no chão.
Jó argumentou partindo de uma concepção errada, concepção esta que nós também abraçaríamos. Deus corrigiu-a, expandindo sua visão para o universo. Não há cálice açucarado, como é apresentado por muitos cristãos. Na ordem do dia divino, a fé humana é mais importante que o prazer.
O diabo não recebe uma repreensão formal no Livro de Jó. Depois dos discursos em que Jó desafia o Senhor, o diabo simplesmente sai de cena, como o bobo do Rei Lear. Até o vejo esgueirando-se na ponta dos pés e saindo de fininho.
Deus não esclarece Jó a respeito da batalha cósmica em que ele foi inadvertidamente envolvido; porque permitir que Jó enxergasse os bastidores significaria mudar as regras da competição que ainda estava em andamento. Deus não consolou, nem justificou, não ofereceu rápidas explicações nem convidou Jó para olhar o vídeo tape e compreender os bastidores.
Deus responde à pergunta sobre o sofrimento no livro de Jó? Não. Deus não fornece uma análise lógica sobre o assunto. Aliás, Ele nem mesmo leva isto em consideração. O que Deus queria de Jó?
Talvez capacitar Jó a reconhecer a legitimidade e a sensibilidade da limitação humana. Nós nos iludimos com a crença de que a nossa mente finita não somente pode, mas também deve saber tudo a respeito de tudo. A resposta de Deus é: “Você não sabe – você não pode saber; e ainda mais, há um legítimo mistério que gera uma necessária sensação de maravilha”.
Ao colocar no vestibular de Jó, perguntas como: onde estava quando a terra e o mar foram formados? Como controlar as ondas do mar, a tempestade e as estrelas? Mostrando a Jó os fundamentos da terra; a represa invisível que impede o mar de cobrir o planeta; a origem da neve; o ponto enigmático de onde surgiu a luz que iluminou o mundo; as estrelas e galáxias que se estendem no espaço; o amanhecer de um novo dia; as leis de evaporação e condensação; o mistério complexo das profundezas do mar; a criação do relâmpago, trovão e as nuvens; a diversidade do reino animal; a harmonia da terra e de todo o universo – Deus nos conduz a uma outra paisagem.
Entretanto, mesmo enquanto me maravilho diante da ofuscante descrição que Deus faz do mundo natural, uma sensação de perplexidade me acompanha. Essas palavras são relevantes?
Clarice Lispector, esbanjou talento ao escrever este delicioso desabafo a “La Jó”:
“Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
meu pecado de pensar”.
Ele recebe. Ele compreende. E o essencial, Ele permite. Jó é o maior exemplo da liberdade de expressão concedida por Deus a um ser humano.
O livro de Jó demonstra que nós podemos dialogar, reclamar e expor nossos momentos de desespero, tristeza, ira, dúvida, amargura, decepção a Deus, sem medo de sermos fulminados. Deus assimila os golpes como um boxeador preparado. A Bíblia mostra com freqüência os seus grandes heróis em luta com Deus. Preferiam expressar o que pensavam, como Moisés e Jó, ou até mesmo ficar defeituoso como Jacó, do que aceitar passivamente o silêncio de Deus ou o desprezo santo, como resposta. Deus lida com todas reações humanas, exceto a tentativa de mantê-lo longe ou ignorá-lo. Isso nem passou pela cabeça de Jó.
A principal mensagem de Jó 42, é que no final Deus corrigirá todas as injustiças. Algumas tristezas, como, a morte dos filhos de Jó, a morte de meus filhos, de minha irmã, não são recuperadas nesta vida. Palavras de consolo não resolvem a dor que encontra solo fértil em nossos corações. Mas no fim, esta dor será absorvida pelo Criador do universo. Terei meus filhos e irmã de volta. E, se eu não acreditasse nisso, que eles estão neste momento, alegremente sorrindo, pulando, e explorando novos mundos, adorando e gozando do privilégio maior, convivendo face a face com o Criador deste fantástico universo, então eu não creria em coisa alguma e teria abandonado a fé cristã.
“Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens” (I Cor. 15:19). A esperança cristã afirma que a tragédia da perda de meus filhos e minha irmã não é apenas uma fatalidade. Não é simplesmente o problema de um defeito genético, um pedaço de DNA estragado no caso deles, e não foi apenas um erro médico que ceifou a vida dela.
A esperança cristã afirma que estes acontecimentos fazem parte de uma história, uma trágica história até o momento, mas não pertence à tragédia a última palavra. A esperança cristã afirma que o DNA estragado não ficará com a última palavra. Que o erro médico não prevalecerá. A esperança cristã afirma que um dia estaremos caminhando juntos novamente, sentaremos a mesma mesa como convidados especiais do grande e eterno Criador.
No caso de Jó nenhum camelo foi ressuscitado dentre os mortos. Nenhuma casa foi reconstruída. Nenhum filho ressuscitado. Nenhum milagre aconteceu – apenas confiança simples como a de uma criança na grande autoridade de Deus!
O silêncio divino que acompanhou Jó e Jesus, não era o silêncio da indiferença, mas o silêncio de um amor que aguarda o gesto recíproco. A razão das lutas que enfrentamos é demonstrar a nossa fidelidade a Deus. Deus aguarda em silêncio a nossa resposta. A vitória não vem de exercícios de guerra, mas na resposta de amor incondicional e desinteressado.
Jó confiou unicamente em Deus. No final, o conforto de Jó está em sua mortalidade. O corpo físico é reconhecido como pó, o drama pessoal como engano. É como se o mundo que percebemos com nossos sentidos, esse festival deslumbrante e terrível, fosse apenas a película que envolve uma bolha, e tudo o mais, dentro e fora dela, puro esplendor. Sendo assim o sofrimento e a alegria passam a ser então como um breve reflexo, e a morte apenas uma porta que leva a eternidade.

(Trecho extraído do livro "Náufragos da fé" de Samuel Rezende)