sábado, dezembro 24, 2011

quinta-feira, novembro 17, 2011

Vazio

Diário de Uma Paixão

Título original: The Notebook
Direção: Nick Cassavetes
Gênero: Drama/Romance
Tempo de duração: 123 minutos
Ano de lançamento: 2004
Sinopse: Em um asilo, um bondoso senhor se propõe a ajudar uma paciente com problemas na memória, lendo para ela uma bela história de amor sobre dois jovens de classes sociais diferentes, separados pela guerra, se reencontrando anos depois para reafirmar esse amor. Embora a memória esteja prejudicada, ela se deixa envolver pela emocionante história de Allie e Noah – e por alguns breves momentos consegue reviver uma época de paixão e turbulência, em que eles juraram que ficariam juntos para sempre.

sexta-feira, outubro 28, 2011

Exilados

Dez Minutos mais Velho: O Celo

Título original: Ten Minutes Older: The Cello
Direção: Diversos
Gênero: Drama
Tempo de duração: 95 minutos
Ano de lançamento: 2002
Sinopse: Intitulado ''The Cello'' (o celo), esta é a segunda parte do projeto que reúne diretores de todas as partes do mundo para dar a sua visão do tempo. Aqui, oito cineastas - Bernardo Bertolucci, Claire Denis, Mike Figgis, Jean-Luc Godard, Jirí Menzel, Michael Radford, Volker Schlöndorff, István Szabó - falam sobre o nascimento, a morte, o amor, o drama de cada momento da vida e mitos passados.

Guerra e Paz (Tolstói)

segunda-feira, outubro 24, 2011

Decibéis

Sofrimentos, dificuldades, provações, frustrações e tragédias, em alguns casos, são as únicas forças fortes o suficiente para chamar a nossa atenção e corrigir a rota. Nas mãos de Deus a dor torna-se um instrumento para nos despertar e gerar mudanças em nossas vidas. C. S. Lewis dizia: “Deus sussurra em nossos prazeres, fala em nossa consciência, mas grita em nosso sofrimento: ele é o seu megafone para despertar um mundo surdo”. Um aumento nos decibéis pode a única forma de chamar a atenção. ©

Amores Expressos

Título original: Chung Hing sam lam / Chungking Express
Direção: Kar Wai Wong
Gênero: Drama/Romance
Tempo de duração: 102 minutos
Ano de lançamento: 1994
Sinopse: Dois policiais, duas mulheres solitárias, duas estórias sobre amor, nas suas mais estranhas e variadas manifestações. A primeira estória é do policial 223, que se encontra com uma viciada traficante de heroína, por quem se apaixona e guarda na memória. A segunda, do policial 633, que acaba de ser rejeitado de um romance de cinco anos e começa a ver em uma atendente de fast food uma nova possibilidade de relacionamento.

Folhas das Folhas de Relva (Walt Whitman)

sexta-feira, outubro 14, 2011

Um Ninho

Em “Pollyana”, romance de Eleanor H. Porter, a tia da menina Pollyana traça uma seqüência de “obrigações” com as quais a garotinha deve “ocupar” seu tempo. E Pollyana protesta porque, com tantas “obrigações”, não sobrará tempo para viver. A tia, uma mulher prática e sensata, retruca: “Claro que você terá tempo de viver. Estará vivendo enquanto faz todas essas coisas, oras”. A menina, muito perspicaz, observa: “Não, tia Polly. Eu estarei respirando o tempo todo, e não vivendo”.
            A vida que o mundo valoriza não é a vida que eu amo, aquela na qual anseio estar imerso. Ler, escrever, ficar perto das pessoas que amo, assistir um filme, orar, ouvir música.
            Vivi seguindo trilhas, perseguindo pistas, rastros, entrando em atalhos, dando voltas inúteis, abrindo mapas, lendo placas adiante nas encruzilhadas. Hoje, gosto de me perder nos lugares, gosto da sensação de não reconhecer nada e depois começar a reconhecer o que tinha esquecido.
            Agora estou perdido nesses corredores cheios de avenidas, estradas, vias auxiliares e acostamentos. Estou aturdido com tantas possibilidades, tanta vaga para estacionar, que ainda não saí do lugar, o motor não roncou, não soltei o freio de mão, não virei a chave, não dei a partida.
            O que sei é que passei muito tempo na garagem, trancado com os vidros fechados, numa espécie de cativeiro voluntário. Agora quero estar acelerando numa estrada, parando no acostamento, para observar um ninho de pássaro.
O cristianismo não é uma religião do templo, embora durante a história ele tenha prevalecido. Mas o Deus no qual acreditamos, é o Deus que está em todos os lugares.
                                    A poetisa Wislawa Szymborska escreveu:
Tenho céu atrás de mim, sob as mãos
E debaixo das pálpebras.
Estou enredada de céu
E isto me exalta.
Partes poeirentas, líquidas, montanhosas,
Passageiras e queimadas do céu, migalhas do céu,
Brisas de céu e montes.
O céu é onipresente
Até nas trevas sob a pele
            O poeta Gerald Manley Hopkins se encantava com um arco-íris, uma ninhada de ovos de tordo era “um pequeno e baixo céu”, a ferradura de um cavalo era uma “sandália brilhante e destruída”, o mundo era um torvelinho divino e Deus o símbolo da exuberância eterna.
            A Terra não seria uma espécie de grande ninho onde se aconchegam várias espécies? ©

Jornada pela Liberdade

Título original: Amazing Grace
Direção: Michael Apted
Gênero: Drama/História
Tempo de duração: 117 minutos
Ano de lançamento: 2006
Sinopse: A vida de William Wiberforce (Ioan Gruffudd) mostra como a perseverança e a fé de um homem mudaram o mundo. Líder do movimento abolicionista britânico, o filme mostra a luta épica para criar uma lei com objetivo de acabar com o tráfico negreiro. Durante esta jornada, Wilberforce encontra oposição intensa dos que acreditavam que a escravidão estava diretamente ligada à estabilidade do império britânico. Em seus amigos, incluindo John Newton (Albert Finney), um ex-capitão de navio negreiro que compôs o famoso hino Amazing Grace, encontrou suporte para continuar lutando pela causa.

A Cruz de Cristo (John Stott)

sexta-feira, outubro 07, 2011

A Criação

O homem ocupa um espaço entre os animais e os anjos, é um peregrino investigando a sua jornada, e que encontra a salvação não na ciência ou na filosofia, mas em um evento histórico que envolve uma pessoa.
            O homem é o único amador, todos os outros são profissionais. Eles não têm lazer e não o desejam. Quando a vaca acaba de comer, ela rumina; quando ela termina a mastigação, ela dorme; quando ela acorda, ela come novamente. Ela é uma máquina que transforma capim em vitelos, leite e bezerros. O leão não pode abandonar a caça, o castor não desiste da árdua missão de construção de barragens, nem as abelhas ignoram a produção de mel.
            De todos os fantasmas que assombram o cosmos, dentre bilhões de objetos estranhos no universo – quasars, pulsars, buracos negros – o ser humano é o mais estranho.
            Eu não sou nenhum cientista, sou apenas um peregrino com um pé na teologia e um amor por palavras. Como um pensador eu tento descobrir que a beleza é mais do que um fato, um mistério. Eu gosto da natureza – das coisas belas e grotescas. Na natureza eu encontro o enredo da graça e o êxtase da violência; a paisagem intrincada revelada na morte; o mistério, a novidade e um tipo de exuberância nostálgica.
            Ali habita o mistério da criação contínua e a variedade imensurável de cores e formas. A incerteza da visão, o horror do fixo, a dissolução do presente, a beleza imensurável, a pressão da fecundidade, a ilusória natureza livre e a perfeição danificada.
            A paisagem revela a beleza extravagante da criação. A criação faz a conexão da eternidade com o tempo, em intrincadas malhas que refrigeram os olhos. Você não precisa de iscas, ganchos e redes; basta se maravilhar. ©

A Árvore da Vida

Título original: The Tree of Life
Direção: Terrence Malick
Gênero: Drama
Tempo de duração: 138 minutos
Ano de lançamento: 2011
Sinopse: Árvore da Vida aproxima o foco na relação entre pai e filho de uma família comum, e expande a ótica desta rica relação, ao longo dos séculos, desde o Big Bang até o fim dos tempos, em uma fabulosa viagem pela história da vida e seus mistérios, que culmina na busca pelo amor altruísta e o perdão.

75 Poemas (Emily Dickinson)

quarta-feira, setembro 28, 2011

Poder

Uma vez eu estava no alto de uma montanha olhando o mar de árvores, quando um trovão me pegou desprevenido. Encontrei uma tempestade perseguindo os meus passos. Temendo os raios, deslizei pelo caminho de volta, fugindo para algum lugar seguro. Enquanto corria, eu olhava os navios escuros que se formavam no céu, enquanto o vento chicoteava as folhas das árvores. Eu sabia que corria perigo, mas havia uma estranha beleza e alegria na paisagem que me envolvia.
            Mas como pode ser belo e alegre algo que tem o poder de destruir? Quando me vi em um lugar seguro e confortável, fiquei pensando no quanto estou acostumado com o que é controlável, amável e seguro. Ao me deparar com a força desenfreada e incontrolável, a considero uma ameaça. É uma resposta natural. Nas mãos dos homens, o poder bruto é corrompido. Desde a queda, as coisas poderosas podem ferir, matar e destruir. O nosso padrão de vida nos mantém isolados dos caprichos dos vendavais ou do toque selvagem da chuva durante a noite. O poder é algo que aprendemos a evitar. A não ser que o poder esteja em nossas mãos.
            Por isso vi na criação de Deus uma beleza arriscada. A verdade é que Deus é o poder absoluto. A sua santidade tem uma força muito maior do que a tempestade mais selvagem que já varreu a terra. A luz da sua presença queima como um relâmpago. A sua voz retumba com a força de milhões de trovões acumulados. E, no entanto, o seu poder é incompreensivelmente bom. Porque o amor está na raiz de sua natureza; o poder de Deus toma a forma da graça para aqueles que o amam.
            Estar exposto a força da natureza me leva a Deus. Eu não posso esperar que Ele responda ao mal com a passividade. Eu não posso esperar que Ele aja ou me visite nas formas que se encaixam com as expectativas que criei. Também não posso esperar que Ele irá acariciar o pecado que está em meu coração. Amá-lo significa a destruição de tudo que está errado em mim.
            As tempestades e noites escuras que, ocasionalmente, visitam a minha vida, são perigosas, mas também são boas, porque vêm de Deus. Elas têm uma finalidade. Na sua selvageria eu toco uma fatia da graça de Deus que inunda todos os cantos da minha vida. Há partes de mim que precisam ser esmagadas pelo seu poder. Ele saberá manusear os restos e formará uma obra mais bela. O toque de Deus, ainda que pareça selvagem, reflete a sua bondade. E, para mim, não pode haver maior beleza do que isto. ©

quarta-feira, setembro 21, 2011

Expulso: Não se Permite Inteligência

Título original: Expelled: No Intelligence Allowed
Apresentação: Ben Stein
Gênero: Documentário
Tempo de duração: 90 minutos
Ano de lançamento: 2008
Tamanho: 700 mb
Sinopse: O documentário é uma crítica ao posicionamento da moderna que dentro da chamada “liberdade acadêmica” suprime toda e qualquer idéia científica que não seja naturalista. Qualquer pressuposto de design deve ser eliminado ou no mínimo chamado de pseudo-ciência. Quem paga o preço por desafiar o “status quo” são os cientistas, professores e alunos que ousam desafiar essa “liberdade acadêmica” que cremos possuir.

O Nó de Víboras (François Mauriac)

quarta-feira, setembro 14, 2011

O Silêncio ao Amanhecer

Há algo no silêncio nos momentos que antecedem o amanhecer que sempre nos cativa – um profundo suspiro antes do esplendor do dia brotar como o som de uma retumbante trombeta. É um silêncio que encontra eco na fundação do universo quando a primeira música foi cantada. É uma pausa que parece direcionar-se para o mundo em preparação para os desafios que se avizinham, uma pausa entre os sonhos de ontem para as realidades do dia. Os cantos noturnos dos grilos já cessaram, o vento da madrugada sopra com insondável tranqüilidade envolvendo-nos como uma canção de ninar, como uma serenata para um coração que cochila. Há uma paz que possibilita ouvir uma canção harmônica, um convite para retornar ao útero como se voltássemos a um abraço. É o silêncio de Deus cujas palavras se tornaram a base de tudo que foi criado e construído. É o silêncio da sua profunda satisfação – e viu Deus que era bom. É o silêncio da alma que finalmente chega em casa e encontra descanso.
            Como uma névoa, misteriosa e profunda, este silêncio irá desaparecer. Logo o movimento do mundo irá romper essa fina membrana de tranqüilidade. Em breve a correria e a fadiga da vida irá se intrometer. O confronto das exigências e necessidades irá perturbar o ambiente. Dor, desconforto e stress é o emblema do mundo que nos rodeia.
            Gostaria de congelar a calma no abraço do momento sagrado, não me atrever a sair para o barulhento mundo. Mas nós não somos criados só para Schumann, mas também para a existência e à luta na dureza do sol – não devemos apenas celebrar a tranqüilidade do seu amor, mas trazer esse amor para um mundo que é cruel e cheio de dor. ©

O Presente

Título original: The Ultimate Gift
Direção: Michael O. Sajbel
Gênero: Drama/Romance
Tempo de duração: 114 minutos
Ano de lançamento: 2006
Sinopse: Jason acabou de perder o avô bilionário que sempre odiou e estava certo de que não herdaria nada. Mas se enganou: "Red" Stevens (James Garner) deixou 12 tarefas para Jason, ao fim das quais ele será avaliado e, se merecer, terá direito ao que Red chama de "o maior de todos os presentes". Cada uma dessas tarefas tem o objetivo de promover alguma mudança em Jason, mas nenhuma terá tanta força quanto o encontro casual com a pequena Emily (Abigail Breslin).

Poemas (G. M. Hopkins)

quarta-feira, setembro 07, 2011

Tess

Título Original: Tess
Gênero: Drama, Romance
Tempo de Duração: 190 minutos
Ano de Lançamento: 1979
Direção: Roman Polanski
Qualidade: DVDRip
Sinopse: Nastassja Kinski estrela este filme dirigido por Roman Polanski, aclamado pela crítica e adaptado a partir da obra de Thomas Hardy. Uma recriação visual incrível da Era Vitoriana, com belos figurinos e locações memoráveis. Na Inglaterra do século 19, a bela Tess (Nastassja), filha de um fazendeiro, é enviada para viver com seus parentes nobres, os d'Uberville. Ela é seduzida e abandonada por seu primo, Alec (Lawson). De volta à fazenda de seu pai, ela dá à luz a um bebê natimorto e enfrenta a hipocrisia da sociedade e até mesmo de seu grande amor, Angel (Firth). Vencedor de 3 Oscar.

A Gravidade e a Graça (Simone Weil)

domingo, agosto 28, 2011

Inadequação

O sofrimento pode ser uma ferramenta para avançar a um nível mais profundo de fé, consciência e introspecção. A vida contemplativa pode começar em uma experiência de dor. O teólogo Paul Tillich dizia que estamos estagnados até que em um esforço crítico confrontamos o vazio e o silêncio. Somente abraçando a própria inadequação experimentamos o crescimento e uma nova vida. ©

Uma História Real


Título original: The Straight Story
Direção: David Lynch
Gênero: Drama/Aventura
Tempo de duração: 112 minutos
Ano de lançamento: 1999
Sinopse: Um retrato lírico da real viagem de um homem através do coração da América. Filmado ao longo da rota de 260 milhas que Alvin Straigt percorreu em 1994, aos 73 anos de idade, indo de Laurens, Iowa para Mr. Zion, Wisconsin. A viagem de mais de 500 quilômetros, num cortador de grama, demorou mais de seis semanas. Straight empreende esta viagem para recuperar a sua relação com Lyle, o seu irmão de 76 anos, que está gravemente doente. Há mais de dez anos que os dois irmãos não se falam. Acompanhamos a odisséia de Alvin e as pessoas com as quais encontrou ao longo da travessia.

Em Busca de Sentido (Viktor Frankl)

domingo, agosto 21, 2011

Divisão

Confessar Jesus Cristo é eliminar a divisão e a hostilidade, o fim da separação e segregação, o fim da inimizade e do desprezo. Ele fez em seu próprio corpo, a paz. Em sua vida e morte criou um novo homem.
            A inimizade foi morta na cruz. O início da vida cristã começa com uma morte (a nossa própria morte).
            A paz de Cristo aceita a base que permite o culto. Reconhece que estamos aqui, juntos, não porque somos amigos ou porque nós desfrutamos de um relacionamento íntimo, ou porque temos as mesmas opiniões teológicas, mas porque – e apenas porque – nós somos um na paz indestrutível de Cristo. João registra que na noite da ressurreição, as portas da casa onde os discípulos se encontravam estavam trancadas por medo dos judeus e Jesus veio e colocou-se no meio deles, dizendo: A paz seja convosco (Jo. 20:19). Jesus atravessa as portas e paredes erguidas pelo medo e revela o modo como as limitações da nossa comunhão são derrubadas. Ele ultrapassa os obstáculos. Deus é amor, e o amor não ama paredes ou muros de separação. ©

Wit - Uma Lição de Vida

Título original: Wit
Direção: Mike Nichols
Gênero: Drama
Tempo de duração: 99 minutos
Ano de lançamento: 2001
Sinopse: Vivian Bearing (Emma Thompson)é uma professora catedrática de poesia inglesa do século 17. Exigente e precisa em seu trabalho, ela só se deixa abater quando recebe o diagnóstico de câncer no ovário em estágio avançado. Concordando em participar de uma experiência, com uma nova droga, Vivian terá que conviver com terríveis efeitos colaterais. Após anos preocupando-se com os versos metafísicos, agora sua especialidade será outra, a dor e o sofrimento físico, passam a fazer parte de sua vida. Para Vivian, este processo, é devastador e superá-lo é seu novo desafio.

domingo, agosto 07, 2011

Enxergar

Hoje, aos quarenta e quatro anos, algumas vezes imagino o planeta terra como uma casa com lareira e jardim e, outras vezes, uma região inóspita, onde vivemos exilados e somos peregrinos. Nos dois ambientes sou amparado pela fé. A fé me leva a enxergar um mundo que não existe ou abre os meus olhos para um mundo que, sem a fé, não posso vislumbrar? ©

Valentin

Título original: Valentin
Direção: Alejandro Agresti
Gênero: Drama
Tempo de duração: 86 minutos
Ano de lançamento: 2002
Sinopse: 1960, Buenos Aires. Valentin (Rodrigo Noya) é um menino de 9 anos que vive com sua avó (Carmen Maura), já que seu pai vive ocupado trabalhando e sua mãe está desaparecida desde a separação de seu pai. Solitário, Valentin divide seu tempo sonhando se tornar um astronauta e ouvindo as histórias contadas por sua avó. Seu grande sonho é que seu pai o leve para conhecer sua mãe, mas ele se irrita só de ouvir a simples menção do nome dela. Valentin passa a acreditar que possa ter enfim uma mãe quando conhece Leticia (Julieta Cardinali), a mais nova namorada de seu pai.

Arquipélago Gulag (Alexander Soljenítsin)

quinta-feira, julho 28, 2011

Amanhecer

Quando amanhece o dia, fico imaginando que exista todo um movimento natural em que todas as coisas do lado iluminado da terra se enchem de radiosa luz. Os pássaros cantam, os animais diurnos que, imagino, saem de suas tocas, os homens saem de suas camas e casas e tudo muda, como se o mundo estivesse começando. Talvez cada amanhecer deva ser considerado uma nova criação.
            Presenciar o amanhecer do dia provoca a sensação de chegar a um dia que o mundo nunca viu antes. Metade do prazer de receber um recém-nascido é a absoluta certeza de que aqui você tem um conjunto de incríveis surpresas, uma infinidade de possibilidades desnorteantes.
            Será que fazemos nossa vida ruim por que não nascemos a cada manhã? Imaginar os problemas que estão se avizinhando com o avançar das horas, o stress, as contas, bancos, engarrafamentos, possibilidades de assalto, tudo isso não é uma prévia do dia quando poderia ser exatamente o oposto? ©

O Oitavo Dia

Título original: Le huitième jour / The Eighth Day
Direção: Jaco Van Dormael
Gênero: Drama
Tempo de duração: 118 minutos
Ano de lançamento: 1996
Sinopse: Um homem com Síndrome de Down cuja mãe morreu e um ocupado homem de negócios, divorciado e sem a posse dos filhos, que não querem mais lhe ver. Os dois acabam desenvolvendo uma amizade especial quando se encontram acidentalmente. Um dos mais sensíveis filmes europeus da década passada com interpretações inspiradas e o tema da amizade e do amor tratado com sensibilidade e poesia.

A Violência e o Sagrado (René Girard)

quinta-feira, julho 21, 2011

Por Volta da Meia-Noite

Título original: Round Midnight
Direção: Bertrand Tavernier
Gênero: Drama/Musical
Tempo de duração: 133 minutos
Ano de lançamento: 1986
Sinopse: O filme conta a história de um jovem francês fanático por jazz que, quando um velho e decadente músico americano passa uma temporada em Paris, aproxima-se dele e acaba oferecendo-lhe ajuda. Os dois enfrentam as dificuldades da vida, mas uma grande amizade e admiração faz com que alguns obstáculos sejam transpostos. O saxofonista Dexter Gordon interpreta o jazzista solitário e alcoólatra. Por sua vez, a trajetória desse personagem foi baseada em fatos reais da vida do pianista Bud Powell e do saxofonista Lester Young. "Por Volta da Meia-Noite" recebeu o Oscar de Melhor Trilha Sonora.

Alguns Gostam de Poesia (Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska)

quinta-feira, julho 14, 2011

Reducionismo

Há poucos dias distrai-me com uma rachadura na porta da casa de uma fazenda. Um feixe de luz aproveitou a pequena brecha para dar o ar de sua graça. Quando olhei o raio de sol vi apenas partículas de poeira a bailar no ar. Quando olhei pela janela, vi as matas, árvores e o céu azul, com um sol brilhando a noventa milhões de quilômetros de distância. Olhar pela janela ou para o feixe de luz na rachadura da porta são experiências muito diferentes.
            Tenho a impressão que passei a maior parte da minha vida olhando o feixe de luz. Hoje, tenho a clara impressão de que o mundo contemporâneo desposou o reducionismo. Quando leio artigos de biólogos, psicólogos, sociólogos e neuropsicologistas, sinto uma sensação incômoda.
            Interpretar processos de pensamento individual em termos de “pacotes complexos” e marxistas em termos de “interesses econômicos”, as duas visões empenhadas em destruir a crença cristã como “ideologicamente defeituosa”, num exercício de reducionismo levado ao extremo. Freud e Marx parecem duas crianças serrando o galho no qual estão sentados. ©

Por Que Tem Que Ser Assim?

Título original: The Heart Is A Lonely Hunter
Direção: Robert Ellis Miller
Gênero: Drama
Tempo de duração: 124 minutos
Ano de lançamento: 1968
Sinopse: Uma obra-prima de sensibilidade e observação. John Singer é surdo-mudo. Ele vive num quarto alugado na casa da garota Mick. Os dois tornam-se amigos, mesmo diante da dificuldade de comunicação entre eles. Além disso, Mick apresenta muitos traumas de adolescência. É isso o que leva Singer a fazer de tudo para ajudar a menina, assim como ele faz com todas as pessoas que necessitam de ajuda. A questão é que não há ninguém que o ajude a resolver os próprios problemas. Baseado no romance de Carson McCullers.

Os Miseráveis (Victor Hugo)

quinta-feira, julho 07, 2011

O Som do Coração

Título original: August Rush
Direção: Kirsten Sheridan
Gênero: Drama/Romance
Tempo de duração: 113 minutos
Ano de lançamento: 2007
Sinopse: Evan, garoto criado em um orfanato, possui um dom musical impressionante. Ele é o fruto do encontro apaixonado da violoncelista Lyla e do roqueiro Louis, que foram tragicamente separados pelo pai de Lyla. Cada um seguiu seu caminho, sem saber que Evan estava vivo, e com a única certeza de que haviam sido feitos um para o outro. Evan, em seu coração, nunca perdeu a esperança de encontrar seus pais. Em sua incrível busca, ele foge para Nova York, onde recebe a ajuda do "Mago", um empresário de rua. Uma história comovente, sobre a magia da música e o poder do amor.

Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano (Alvaro Vargas Llosa)

terça-feira, junho 28, 2011

Epifania

As epifanias podem acontecer a qualquer um, em qualquer momento da vida. As revelações, os suspiros milagrosos que reacendem velhas chamas e até as pequenas nuvens que se formam diante dos olhos não são artes de ficção, resultado de experiências imersas em fantasia.
            John Updike escreveu que certa vez estava “com medo e sem sono em um quarto de hotel em Florença, na Itália” quando teve um momento de epifania no meio de uma tempestade: “Relâmpagos. Raios. A chuva estava furiosa. Eu não estava sozinho no universo... Eu estava cheio de um sentimento de felicidade... Meu fardo de ser estava sendo compartilhado. Deus estava trabalhando, à vontade, até mesmo nesta agitação noturna de Florença, esta ira celeste e desafio arquitetônico, esta luta Jacobeana... Tudo isso parecia um resgate, uma oração atendida”. ©

Trem Mistério

Título original: Mystery Train
Direção: Jim Jarmusch
Gênero: Comédia/Drama
Tempo de duração: 110 minutos
Ano de lançamento: 1989
Sinopse: Três histórias inusitadas, cujos personagens se cruzam num hotel decadente de Memphis, terra natal de Elvis Presley (figura constante em todo o filme). No primeiro episódio - Longe de Yokohama - um casal de japoneses obcecados pela cultura americana e fanáticos por rock da década de 50 vai aos EUA conhecer os estúdios da Sun Records. No segundo - Um Fantasma - uma mulher italiana vem a Memphis buscar o corpo do marido, que morrera ali poucos dias antes. Após ser perseguida por um bando de delinquentes, hospeda-se num hotel assombrado pelo fantasma de Elvis Presley. No terceiro - "Perdidos no Espaço" - um marido ciumento e os seus amigos ficam bêbados e metem-se numa enrascada ao matar acidentalmente o balconista de uma loja de conveniência.

O Fantasma da Ópera (Gaston Leroux)

terça-feira, junho 21, 2011

Terra das Sombras

Título original: Shadowlands
Direção: Richard Attenborough
Gênero: Drama
Tempo de duração: 131 minutos
Ano de lançamento: 1993
Sinopse: Um período da vida de C. S. Lewis, professor, intelectual, teólogo leigo e escritor (autor de As Crônicas de Nárnia). Em 1952, na Universidade de Oxford, surge o relacionamento entre o professor e intelectual C. S. Lewis (Anthony Hopkins) e a escritora americana Joy Gresham (Debra Winger). Eles se encontraram após ela lhe ter escrito uma carta, sendo que esta correspondência a levou a sua primeira viagem à Inglaterra, que ela fez em companhia de Douglas Gresham (Joseph Mazzello), seu filho. Lewis a recebeu como cortesia, como parte da rotina de sua vida de professor, mas ele não sabia o que fazer quando algo lhe ficou claro: que estava apaixonado.

A Peste (Albert Camus)

terça-feira, junho 14, 2011

O Mundo é Grande e a Salvação Espreita ao Virar a Esquina

Título original: Svetat e Golyam I Spasenie Debne Otvsyakade
Direção: Stephan Komandarev
Gênero: Drama
Tempo de duração: 105 minutos
Ano de lançamento: 2008
Sinopse: O que existe num jogo? Para um jovem rapaz que deixou seu país para trás, perdeu a memória e esqueceu seu amor, um jogo pode ser a única saída. É assim para Alex, um rapaz búlgaro que cresceu para ser um homem alemão. Depois de um acidente de carro, Alex sequer se lembra de seu nome. Numa tentativa de curar essa amnésia, Bai Dan - avô de Alex - chega a Alemanha e organiza uma viagem espiritual ao passado do neto. A idéia é voltar ao país de origem do rapaz, cruzando a Europa por diversos lugares. Durante a viagem eles jogam gamão - ao mesmo tempo simples, mas o mais complexo dos jogos. É a partir desse jogo que Alex vai descobrir quem ele é.

Origens do Totalitarismo (Hannah Arendt)

sábado, junho 11, 2011

A Beleza em Retalhos

Original Abstract Art – Contemporary Art Gallery by Osnat Tzadok

Vivemos como turistas em um ônibus trafegando em uma bela paisagem. Atravessando campos de girassóis e montanhas deslumbrantes. Os passageiros, inexplicavelmente, fecham as cortinas do ônibus. Não se dão conta da beleza que os circundam. Preferem perder tempo com discussões inúteis, procurando a melhor poltrona e quem demora mais no banheiro.
Paul Tilich escreveu: “Em todas as religiões a experiência do sagrado é mediado por alguma peça da realidade finita. Tudo pode se tornar um meio de revelação, um portador do poder divino”. Tudo inclui não só todas as coisas na natureza e na cultura, na alma e na história; inclui também os princípios, categorias, essências e valores. Entre estrelas e pedras, árvores e animais, conquistas e catástrofes, ferramentas e casas, escultura e melodia, poesia e prosa, leis e costumes, partes do corpo e funções da mente, relações familiares e comunidades voluntárias; através do tempo e do espaço, ser e não-estar, ideais e virtudes, o sagrado pode surpreender-nos e confrontar-nos. Há um rosto oculto nas dobras dos acontecimentos, deslizando pela matéria.
Eu sempre senti que as pessoas, de alguma forma, costumam imortalizar uma paisagem, que o simples fato de uma presença humana em um determinado lugar deixa uma marca. Walt Whitman estava certo quando festejou a melancolia e a beleza criada em um lugar por onde transita multidões e gerações que passaram por ela.
As ruínas são testemunhas da perda, restos de coisas e mantêm uma melancolia em si mesma. Ecos metafísicos. Trilhas que apontam para presenças ausentes. Caminhando a beira das ruínas de uma casa na fazenda da minha família, encontrei uma mariposa agarrada a um madeiramento que se mantinha em pé, protegida do vento. Toquei-a de leve, parecia hibernar, era colorida com um anel azul desenhado nas asas.
Acompanhando a cerca cheguei próximo a uma árvore cuja casca revirava como pipoca estourada. Comecei a descascá-la até que deparei com uma pequena borboleta, ela estava encolhida e tremia, parecia proteger-se do tempo frio. Quando o frágil raio de sol a tocou, ela se abriu como uma ostra.
Uma das coisas que eu costumo admirar são as borboletas. O formato, as cores, a leve e irrequieta dança. Mas há outra coisa: borboletas são evanescentes, um símbolo da transitoriedade. A sua fragilidade no tempo aumenta a sua beleza.
Quando era garoto, eu perseguia as borboletas; a atração era mais estética do que científica. Uma vez acompanhei o passeio de uma borboleta, por um estreito caminho, densamente sombreado, a beira de um riacho. Ela parecia flutuar sobre o manto de luz do sol. Era uma mistura de preta-roxa com fitas amarelas e azuis. Uma sublime combinação de cores que, no vestuário ou na decoração de casa, ficaria horrível.
Há pouco tempo voltei ao mesmo lugar onde persegui a inesquecível borboleta. O mato acabara com o santuário.
Mas ali estavam alguns pés de laranja com jóias amarelas penduradas nos galhos espinhosos. Eu as pego e inundo o ar com sua sedutora fragrância. Raios de ouro brilhavam através das suas folhas.
Domesticar os olhos. É o que venho tentando fazer. Cheguei a conclusão de que já perdi muitas laranjeiras louvando a Deus no final de uma safra maravilhosa, espalhando a cor de ouro brilhante, com suas folhas iluminadas pelo sol. Já perdi um casal de gansos com suas cabeças reverentemente inclinadas para Deus.
Há alguns dias eu vinha caminhando pela rua da minha casa, e um casal de arara azul, empoleirado em uma das antigas palmeiras que enfeitam o jardim de uma residência, conversava animadamente. Parei e fiquei prestando atenção no diálogo arrebatado. Gostaria de conhecer a sua linguagem ou ter à mão um tradutor. A quinze metros, quatro mulheres também conversavam acaloradamente. No entanto, as palavras proferidas pareciam tão insípidas quando comparadas a enérgica colocação da arara. Encantado, isolei os meus sentidos das “papagaiadas” humanas, e, durante cerca de cinco minutos me entreguei ao universo das araras.
Alguns dias depois, em um dos postes de madeira da rua onde moro, um casal de pica-pau batucava animadamente, com seus belíssimos topetes vermelhos. Um João de Barro retocava a sua casa em um poste em frente a minha casa. E uma orquestra de pássaros posicionou-se no muro e na antena parabólica da minha casa.
Fiquei pensando nas palavras escritas por Isak Dinesen: “Uma ave, se forçar ao máximo a capacidade de suas asas, poderá encontrar ou passar por um anjo numa das trilhas agrestes do espaço celeste. Quem sabe a asa da andorinha já roçou o pé de um anjo, ou o olhar de uma águia, ao sentir suas se exaurirem, encontrou os olhos calmos de um dos mensageiros de Deus”.
Poderia os anjos orientar os pássaros a pousarem nas estradas que eu trilho?
Quando era um garoto, nunca imaginei que a natureza faria parte da minha mitologia pessoal. Era um menino apaixonado por árvores, pequenos insetos e trilhas na mata. Fui passar alguns dias na casa da minha tia, não havia energia elétrica e às 18 horas a escuridão que dominava o ambiente somente era quebrada pela frágil luz de uma lamparina. A escuridão da noite na fazenda provocou intensa tristeza misturada a medo. O meu heroísmo resistiu à apenas uma noite.
Mesmo assim, florestas e bosques me dão a impressão de um santuário, um local onde é possível que os contos de fadas tornem-se realidade. O mundo é um símbolo de uma grande generosidade. Após 20 anos no exterior, Henry James visitou a Nova Inglaterra, durante o outono, e prestou atenção no imenso consolo, beleza, dignidade e elegância de uma floresta: “Como uma jovem mulher vestida para um baile à fantasia”.
A poesia foi a minha principal orientadora no caminho da natureza. Para Wordsworth “A natureza é uma inesgotável fonte de fantasias e provocante encantamento”.
Há alguns dias caminhei por uma antiga trilha no meio da mata fechada da fazenda da família. Sentei em uma grande pedra e fiquei admirando a beleza das imponentes e elegantes árvores, enquanto muitos pássaros cantavam e pulavam de galho em galho. Os brotos verdes de plantas e flores selvagens abriam caminho através da terra.
Em dias assim os pássaros voam pelo vale, a chuva derrama-se sobre a fazenda, e filetes de água descem da mata escorrendo para o rio. A água está cheia de sedimento e galhos. Os gritos de alguns animais parecem chamar de volta a esperança.
À beira do rio peguei algumas pedras. Uma pedra branca parecia um pequeno ovo, outra uma meia lua. Caminho na areia e tenho a sensação de caminhar em seda desfiada.
Assisti a um filme em que a personagem escreveu: “Os jovens amantes procuram a perfeição”. E ele respondeu: “Os velhos amantes conhecem a arte de costurar retalhos. E de ver a beleza dos remendos”.
Quando vou a fazenda pego os retalhos, costuro-os e fico olhando a beleza dos remendos. Cada novo amanhecer, cada gota de chuva, cada orquídea, cada lâmina da grama, cada formigueiro, cada toque de uma mão querida, cada abraço de uma criança sorridente, cada tomada de um bom filme, cada nota de um concerto de Mozart. Junto tudo isto com aquilo que encontro pelo caminho.
A poetisa Emily Dickinson dizia que o único mandamento que não havia quebrado era “Olhai os lírios do campo”. Tenho tentado fazer o mesmo.
Thomas Hobbes aconselhou a acompanhar as sebes a beira da estrada quando andamos errantes, sem mapas e correndo perigo. Ele está certo, mas às vezes as nossas estradas não têm sebes. Então, nessas horas de angústia precisamos olhar para a natureza e ouvir a voz de Jesus: “Não andeis ansiosos... olhai os lírios do campo... vós valeis muito mais do os pardais”.
Num bar em Paris durante o dia, uma jovem mulher se aproxima de um homem de meia-idade e diz que tinha lido uma coisa fantástica numa revista e precisava falar disso com alguém. Era o seguinte: no México, cientistas contrataram carregadores para levá-los ao cume da montanha de uma cidade inca. A certa altura, os carregadores não quiseram mais prosseguir. Os cientistas, irritados, não sabiam mais como fazê-los seguir adiante. Não entendiam os motivos de uma parada tão prolongada. Após algumas horas, os carregadores recomeçaram a andar e, finalmente, o chefe deles deu uma explicação: eles tinham corrido muito e estavam esperando suas almas chegarem. A moça que contou esta história – uma personagem de “Além das nuvens”, filme do diretor Michelangelo Antonioni, – comentou: “É fantástico, porque também corremos atrás de nossas coisas e perdemos nossas almas. Devíamos esperar”.
Realmente, corremos atrás de tantas coisas que nossas almas não vêem mais a beleza dos lírios do campo.
Sempre que ando nas matas presto atenção nas velhas árvores. Existem vários pontos apodrecidos, onde pássaros fazem ninhos nas suas cavidades. Não é assim com Deus? Ele pega os fracassos, falhas, dores, ruínas e transforma em vida, alegria, luz e abundância.
Alguns desastres são visíveis, fáceis de notar, como uma árvore que não resistindo à tempestade, perde vários galhos – a morte de um querido, as decepções etc.. Outros são mais silenciosos e, aparentemente, invisíveis. Como os pequenos furos na casca de uma árvore – um relacionamento que se desfaz, um amigo que quebra a promessa, um emprego que perdemos.
Quando uma árvore morre, ela se torna uma pequena casa confortável para vários animais. Pequenas criaturas ainda encontram refúgio em seu interior. Quando estamos feridos, aparentemente mortos, Deus pode preencher os lugares mortos com olhos brilhantes e sons vibrantes. Se Deus pode utilizar o “cadáver” de uma velha árvore para sustentar a alegria da vida, pode fazer brotar a alegria em nosso interior machucado.
Há poucos dias vi alegres abelhas entrando e saindo de um buraco em uma velha árvore. Ali dentro um rio de mel deslizava suavemente. O zumbido das abelhas enchia o ar. Um pouco adiante, borboletas amarelas, pretas e laranjas flutuavam. Havia de todos os tamanhos e cores. Uma pequena, do tamanho da unha do polegar, desfilava a roupa azul e verde. Besouros pareciam guerreiros medievais com suas reluzentes armaduras. Insetos com voz soprano acompanhavam o zumbido das abelhas. Passarinhos bicavam as jabuticabas.
Eu vi o dedo de Deus na primavera passada fazendo brotar o tomate, a melancia e as flores e, no inverno, acariciando suavemente a natureza, mandando-a dormir e esperar o momento do renascimento.
Deus me tocou e foi tocado: nas palavras com as quais eu trabalhava, me movendo por caminhos que eu devia andar, mas não queria fazê-lo. Eu o vi no sol do verão e da esperança, no vento de outono e na reflexão, no frio a endurecer os dedos das mãos, esparramando-se pela grama que protege as vidas de pequenos animais que aguardam a primavera para sair do refúgio.
Posso não ter visto Deus ou anjos. Mas tenho visto as águas agitadas que revelam a sua presença. E, pouco a pouco, tenho olhado o mundo como a superfície de um lago, sabendo que há muitas coisas ocultas, e que preciso mergulhar para vê-las.

(Trecho do livro “Um Grito de Ausência” © de Samuel Rezende )