terça-feira, janeiro 08, 2008

UM 2008 MAIS DO QUE SIGNIFICANTE



Para W. H. Auden, a nossa ordinária existência é chacoalhada na época de Natal: “a festa de Natal transforma a memória”. O interessante no seu poema não é que ele fala dos eventos da natividade mas por prolongar o impacto da encarnação em um mundanismo diário.
Para Auden o Natal é mais do que o ápice de uma comemoração, é um lembrete anual de que Deus agiu e está agindo “para redimir a insignificância”, a lama monótona de nossas rotinas.
Os críticos que bajulavam Auden, criticaram o seu retorno à igreja. Diziam que era um ato de covardia intelectual e desprezaram-no. Os intelectuais liberais que o aplaudiram quando dissecou a passionalidade dos traumas sociais dos anos 30, agora bufavam com seu novo estilo divertido, frívolo e irrelevante.
Um artigo escarnecedor perguntava: “O que terá acontecido com Wystan?”
O certo é que este grande poeta não passou em branco. Neste poema ele descreve o fervor religioso do feriado e a depressão pós-natal:
As ruas são muito mais estreitas do que nós recordamos;
Nós tínhamo-nos esquecido
O escritório era tão comprimido como este.
Àqueles que viram
A criança, de qualquer modo não ofuscante, incredulamente,
Tempo que é, em um sentido, o tempo tentando de tudo.
Para Auden, a encarnação infunde significado a existência histórica. O hoje foi redimido, e a tarefa dos cristãos é participar deste trabalho lento:
Entrementes
Há contas a ser pagas, máquinas para serem consertadas,
Verbos irregulares a aprender, o Tempo redime
A insignificância.
Estava olhando o quadro “A queda de Ícaro” de Pieter Brueghel, a representação mais inesperada deste mito. O mar, a natureza e a cidade dominam a cena. Destaca-se um lavrador indiferente, um pastor a olhar para o céu, mas para o lado errado; atrás dele, na água, mas quase sem se ver, o Ícaro caído. O quadro parece querer ignorar a presença de Ícaro: é um ponto no canto inferior direito (como uma assinatura), caído na água, de pernas para o ar. A insignificância de Ícaro contém um sentido filosófico-moral. As pessoas nem notaram o acontecimento.
Inúmeras estimativas foram feitas, tentando datar o universo. O cristão afirma que em um momento especial, antes do tempo, Deus num rasgo de criatividade, chamou a existência – águas, terra, plantas, animais e seres humanos – não em dias comuns. A Bíblia é pródiga em declarações de que o tempo de Deus não é o nosso tempo. Mil anos não é mais do que um piscar de olhos a luz de Deus.
Quando Deus criou o universo, foi como se uma flor minúscula desabrochasse em grandes nuvens de gás de hidrogênio e galáxias rodopiando. Deus criou os sistemas solares e planetas, e este planeta no qual caminho enquanto a terra faz a sua graciosa dança em torno do sol.
E Deus examinou a sua intrincada criação e considerou-a boa. Cada partícula subatômica da criação foi examinada pelo Criador. De uma partícula destinada a viver alguns segundos a uma galáxia com uma extensão de vida de bilhões de anos.
Houve um momento quando todas as estrelas prenderam a respiração, as galáxias pausaram a sua dança por uma fração de segundos, e a Palavra que as tinha chamado à existência, foi silenciosamente aninhar-se no ventre de uma jovem. E o universo respirou novamente.
Um poder além da imaginação entregou-se a impotência de uma criança em gestação, informe, nadando no grande oceano do líquido amniótico, cego, surdo e mudo. No ritmo lento do crescimento de um embrião humano este poder aguardou nove meses para nascer.
Jesus Cristo, a segunda pessoa da trindade, criador do universo, visitava este pequeno planeta, limitado ao tempo, espaço e ao universo humano.
O Verbo-Criança, a palavra divina fez-se carne. Devemos ser gratos por este presente sagrado. Para Auden a doutrina da encarnação significa que quando a palavra fez estadia entre nós, os pontos fracos e os limites do mundo adquiriram uma cor inesperada. No coração, o cristianismo é uma vigorosa religião materialista, porque afirma que o sagrado entrou no mundano.
A palavra divina introduziu-se furtivamente no mundo, como um bebê em Belém. Depois desse acontecimento surpreendente, devemos permanecer abertos à possibilidades, surpresas e maravilhas.
A principal crise do nosso tempo não é energética ou ecológica, mas uma crise espiritual. A aquiescência da cultura ocidental para o materialismo resultou em uma profunda negligência da vida transcendente que ironiza a adoração, a encarnação e a tentativa de manter um padrão moral.
Não há como ressacralizar o cosmos. Mas podemos procurar pistas nas experiências comuns da vida. Há sinais da transcendência em nosso desejo de ordem, no jogo do amor, no uso do humor e em nossas experiências de esperança e desespero.
O sofrimento pode ser uma ferramenta para avançar a um nível mais profundo de fé, consciência e introspecção. A vida contemplativa pode começar em uma experiência de dor. Para Evelyn Underhill, o primeiro estágio é a conversão. O teólogo Paul Tilich dizia que estamos estagnados até que em um esforço crítico confrontamos o vazio e o silêncio. Somente abraçando a própria inadequação experimentamos o crescimento e uma nova vida.
Gosto de Kierkegaard. Conheci os seus textos no período em que li J. D. Salinger e seu cultuado personagem rebelde Holden Caufield. As arremetidas espirituais e intelectuais de Kierkegaard carregam o cheiro da rebelião da juventude, um noivado com a recusa radical de encarar o mundo como ele é.
O salto da fé de Kierkegaard introduz a transcendência do amor divino. Ele não traz apenas a lei moral para a terra, mas, paradoxalmente, introduz uma demanda para amar além da possibilidade humana. Nós somos incapazes de satisfazer a exigência da lei moral. Mas somos incapazes de viver sem ela. Se optarmos pela esfera ética da existência, vivendo como um asceta, experimentamos o sabor do desespero.
No cristianismo o indivíduo atinge a intensa e profunda reflexão: “ser cristão é uma determinação dialética, pois o Indivíduo se torna cristão pela conversão. A fé é enraizada na infinita dialética da incerteza”.
O mundo moderno tenta isolar a dor, anestesiar o sentimento e finda provocando mais sofrimento.
A vida é cheia de um sol radiante, de tempestades incríveis e o que vemos pela rua é gente correndo, gente com pressa porque é sempre ali na frente que está a nossa solução. O que precisamos é morar, comer e consumir. E para isso temos que estudar e trabalhar. Uma equação bastante simples e lógica. Um bebê não exporia melhor. Temos simplesmente que resolver o rumo que desejamos. Desejamos estar nesse mercado competitivo? Desejamos estar de gravata e com o cartão de crédito sempre na iminência de estourar?
Vejamos uma outra pessoa que vá na contramão de tudo, que resolva, por exemplo, recolher-se a um mosteiro e dedicar sua vida a Deus. Não me parece que duvidemos da sanidade de um frade ou de um pastor. Parece que está tudo certo, tecnicamente com ele, esse homem igual aos outros apenas escolheu um caminho que não é o da maioria, mas é perfeitamente aceito.
William James, norte-americano que foi um dos grandes fundadores da moderna psicologia científica, afirmava, e cito de memória, que “não é psicologicamente possível ao homem viver sem acreditar na sua própria imortalidade”.
“No fundo, o que se oculta sob toda esta problemática é o problema da existência da alma: nós temos ou não temos uma alma? Mas não é apenas o problema da existência da alma: é também o problema das relações entre a consciência, a mente e o cérebro/corpo”.
“Desenvolvendo uma comparação sugerida por Rupert Sheldrake... ninguém se lembraria de supor que a rádio e os seus mecanismos internos são a fonte das vozes e das músicas que dele saem; ninguém se lembraria de supor que a televisão e os seus mecanismos internos são a fonte das imagens e dos filmes que dela saem; mas é curioso verificar como tão facilmente cremos que o cérebro e os seus mecanismos internos são a fonte da consciência! Mas a verdade é que a rádio, a televisão e o cérebro são apenas aparelhos de recepção e de emissão: de sons, de imagens e sons, e da consciência”.
Muitas vezes nos fechamos em nosso viver hedonista, circunscritos que aos nossos desejos, à vida que levamos, e que para nós, por ser tudo o que temos, em parte limita o mais que poderíamos ser, ou mesmo ter, no que diz respeito às experiências que viríamos a acumular. Quando nada interfere, também pouca coisa muda. Quando só há ruídos, o silêncio não é um dado de realidade, porque já está tão internalizado em nós, que apenas o barulho aparenta ter força de verdade.
Por que os salmos são os livros mais lidos da Bíblia? Creio que uma das pistas é que eles contêm toda a experiência humana, do desespero à alegria, da gratidão à raiva, da celebração a beleza da natureza a perguntas sem respostas sobre a violência. As pessoas gostam de saber que há três mil anos alguém estava sentindo a mesma coisa e orando. A vulnerabilidade é exposta e permite afastar a cortina e vislumbrar que Deus está ali.
Curiosamente, os salmos me levam a aturar a igreja, esse amontoado de cantores ruins que fazem um ruído maior do que a soma de suas vozes débeis. Em um culto de adoração eu posso sentir – a despeito desse aspecto – a presença de Deus.
Apesar do abismo, como diria Emily Dickinson, da solidão, dos momentos de isolamento e desespero, e da desafinação vocal, há o sentimento comum e a memória universal. Então acrescento a lista inicial, o calafrio a percorrer meu corpo, as lágrimas a brotar nos olhos e a estranha sensação de invadir um lugar sagrado.

(Trecho do livro “Relíquias de uma terra estranha” de Samuel Rezende)

7 comentários:

O PENSADOR disse...

Excelente Texto, ..., gostaria de ter escrito. Quando o livro for publicado, informe do blog. Um abraço...

barb michelen disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Marlene Maravilha disse...

Samuel, um beijo enorme para ti e um Deus te abencoe cheio do amor de Deus!!!

Marlene Maravilha disse...

Espero que as bencaos do SEnhor estejam inundando a tua vida!!!
beijo grande da amiga,

Anônimo disse...

Samuel,

encontrei seu blog e apaixonei-me por seus textos. Gostaria de adquirir seus livros, como faço?

Deus lhe abençoe sempre,

Carmen

Anônimo disse...

Desculpe,

esqueci de deixar o endereço de email no comentário anterior:

carmencunha2003@yahoo.com.br

Samuel Rezende disse...

Pensador... fico feliz que você tenha gostado. Assim que um dos livros for publicado, estarei lhe comunicando.
Um grande abraço.

Marlene... Que Deus abençoe a todos nós e nos sustente durante as tempestades.
Graça e paz.

Carmen... Assim que for publicado, lhe enviarei um e-mail. Deus te abençoe.