segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Sensação

Muitas vezes as pessoas perguntam: “Como você pode ouvir a tua vida?” Como adquirir o hábito de fazer isso? Como manter os olhos e ouvidos prontos a detectar a presença de Deus ou a presença de algo mais? Aprendi que devo prestar atenção nos arrepios e nas lágrimas que vem aos olhos. Não podemos controlá-los, são inesperadamente desencadeados. Creio que, nestes momentos, sob a superfície das coisas, alguém está tentando falar com você ou sobre quem você é.
            Uma paisagem, uma música, um filme, um livro, um poema, uma pintura, um animal, uma árvore ou uma face que jamais viu pode desencadear aquilo que chamo de sensação de eternidade. Uma palmeira balançando ao vento ou um velho sapato abandonado pode chamar a atenção. É uma sensação particular, individual.
            Talvez a sensação seja o reflexo de uma delirante lembrança do Éden. Esta maravilhosa dança de seres humanos e animais, alegria e liberdade. Este grande reino pacífico, este grande jardim por onde Deus passeava ao cair da tarde. Um pequeno vislumbre de uma paisagem fechada. ©

Antes do Por-do-Sol

Título original: Before Sunset
Direção: Richard Linklater
Gênero: Romance
Tempo de duração: 80 minutos
Ano de lançamento: 2004
Sinopse: Dois jovens se encontram em Paris nove anos depois de passarem uma noite apaixonados pelas ruas de Viena. Muitas coisas aconteceram em suas vidas durante esse tempo, mas a pronta lembrança e as excelentes sensações que o novo encontro traz talvez provem que a paixão daquela noite foi mais importante do que eles julgavam.

O Senhor das Moscas (William Golding)

sexta-feira, janeiro 28, 2011

Película

Precisamos consentir que luzes lampejem em nós, permitindo ver – mesmo que por breves clarões na vida como numa escura sala de projeções, sacrificando nossas consolações vazias, nossas paixões condenadas a cinzas, nossa avidez pelo efêmero – Aquele que prefere ocultar-se e que, em seu pudor, é a Fonte permanente do nosso mais intenso fascínio.
            Como o apóstolo Paulo, precisamos ser cegados. Mas uma cegueira que nos liberte da escuridão que nos rodeia e nos conceda olhos capazes de ver através dessa fina película transparente situada entre o homem e Deus. ©

Antes do Amanhecer

Título original: Before Sunrise
Direção: Richard Linklater
Gênero: Romance
Tempo de duração: 105 minutos
Ano de lançamento: 1995
Sinopse: Jesse (Ethan Hawke), um jovem americano, e Celine (Julie Delpy), uma estudante francesa, se encontram casualmente no trem para Viena e logo começam a conversar. Ele a convence a desembarcar em Viena e gradativamente vão se envolvendo em uma paixão crescente. Mas existe uma verdade inevitável: no dia seguinte ela irá para Paris e ele voltará ao Estados Unidos. Com isso, resta aos dois apaixonados aproveitar o máximo o pouco tempo que lhes resta.

O Velho e o Mar (Ernest Hemingway)


sexta-feira, janeiro 21, 2011

A Lente

A arte nos leva a considerar a vida através da lente da história. A Bíblia é uma história. A Bíblia é a história do projeto redentor de Deus. Nós fazemos parte dessa história. A poetisa Denise Levertov dizia que a língua poética da história não é “uma examinação do que acontece, mas uma imersão no que acontece”. A Bíblia não é um manual de procedimentos ou uma coleção de lições morais, mas uma história que ainda se desenrola.
            A arte nos leva a considerar a complexidade do mundo, experimentar as nuances da vida e compreender que o mundo não é preto ou branco. Ao ler “O Grande Gatsby” aprendo quem Gatsby é, e desenvolvo uma simpatia que esfacela os julgamentos arrebatadores que emito quando vejo uma pessoa em apenas uma dimensão. A arte me leva a ver as pessoas com olhos mais benevolentes.
            A arte desenvolve a imaginação. A beleza dos relacionamentos, da criação e de muitos aspectos ordinários da vida podem facilmente ser negligenciados se não treinarmos os nossos olhos para ir além da primeira camada. ©

Além da Linha Vermelha

Título original: The Thin Red Line
Direção: Terrence Malick
Gênero: Drama/Guerra
Tempo de duração: 170 minutos
Ano de lançamento: 1998
Sinopse: Durante a Segunda Guerra Mundial, fica claro que o resultado da batalha de Guadalcanal influenciará fortemente o avanço japonês no Pacífico. Assim, um grupo de jovens soldados é enviado para lá, trazendo alívio para as esgotadas unidades da marinha. Lá os recém-chegados conhecem um terror que nem imaginavam, mas no meio deste desespero surgem fortes laços de amor e amizade.

Poesia (T. S. Eliot)


quarta-feira, janeiro 19, 2011

Eternamente Jovem

Eu era uma criança morando em uma pequena cidade do interior. Acostumado a ouvir no velho rádio Roberto Carlos, Wanderlei Cardoso, Jerry Adriani, Diana, Odair José, Secos & Molhados e outros artistas nacionais. Um dia ouvi a abertura de cordas de “Califórnia Dreaming” do The Mamas and The Papas. A harmonia voava nos ares, o doce anseio do poema lírico, o som da costa ocidental levou-me para longe das pequenas brigas com as outras crianças da escola.
Alguns anos depois, por volta dos 17 anos, em um salão de bar, de um velho jukebox uma canção saía e entrava em minhas veias com seus arranjos frescos, e as palavras que me pareciam poéticas, quebrando a solidão. Fui informado que era da banda Alphaville, “Forever Young”:

Vamos dançar com elegância
Vamos dançar por um instante
O paraíso pode esperar
Estamos apenas observando os céus.
Desejando o melhor
Mas esperando o pior
Você vai deixar cair a bomba ou não?

Nos deixe morrer jovens
Ou viver pra sempre...
A vida é uma viagem curta...

Eternamente jovem
Eu quero ser pra sempre jovem
Você realmente quer viver pra sempre?
Pra sempre e todo sempre
Eternamente jovem
Você realmente quer viver pra sempre
Eternamente jovem

Alguns são como a água
Outros como o fogo
Alguns são a melodia
Outros são o ritmo
Cedo ou tarde
Todos terão virado poeira
Porque não permanecem jovens?
É tão difícil ficar velho
Sem um propósito
Eu não quero ser sacrificado
Como um cavalo inútil
A juventude é como um diamante ao sol
E os diamantes são eternos

Tantas aventuras não aconteceram hoje
Tantas canções que esquecemos de tocar
Tantos sonhos aparecendo do nada
Nós os tornaremos realidade

Eternamente jovem
Eu quero ser pra sempre jovem
Você realmente quer viver pra sempre jovem?
Pra sempre e todo sempre
Eternamente jovem

Eu jamais esqueci o impacto desse som deslizando em mim e descobri como a arte pode, inesperadamente, entrar em nossas vidas, deixando uma marca inesquecível.
Tentando construir um acervo de vídeos das músicas que me marcaram, percorri o Youtube selecionando esses momentos mágicos. Ali estava o Alphaville com seu clip original, da década de 80. O vocalista Marian Gold, no frescor de sua juventude, e seus jovens companheiros de palco. Mas ali também estava alguns vídeos recentes, como a apresentação da banda em um festival de 2007. Eles cantavam “Eternamente jovem”, e confesso que as palavras me soavam como um melancólico desejo não atendido. O tempo passou, eles envelheceram. Tudo dentro do roteiro estabelecido. O jovem esbelto tornou-se um senhor rechonchudo. Mas a música permanece embriagantemente moderna.
O Alphaville foi o porta-voz do maior sonho humano: viver pra sempre. De preferência, jovem. As modernas clínicas de cirurgia estética, os spas e as academias de ginástica tentam deter, ou pelo menos, adiar, o inevitável envelhecimento do corpo. A ilusão de uma juventude eterna permeia a existência humana; continuamos a busca sem êxito da “fonte da juventude”.
Exercícios são elaborados, capas de revistas apresentam modelos com rosto sem rugas e corpos atraentes; fitas de vídeo, exercícios e cremes prometem rejuvenescimento, basta seguir a receita prescrita. Academias de ginástica e cirurgias plásticas tentam mascarar o envelhecimento.
“A juventude é como um diamante ao sol... E os diamantes são eternos... Eu quero ser pra sempre jovem”, cantava o cinqüentenário vocalista. Mas o corpo denunciava o desejo não realizado.
Aos cristãos foi prometido a vida eterna e um novo corpo. Seremos “revestidos da nossa habitação celeste” (II Cor. 5:1-8). O elemento mortal será “absorvido pela vida”. Qualquer que seja nossa aparência exterior, nossa intelectualidade e nossa natureza espiritual, no céu será a de um santo que é maduro e que tem as faculdades completas de um adulto, para que possa desfrutar tudo o que Cristo preparou para nós. Nossos velhos pais que, provavelmente, já perderam o vigor físico, estarão de posse de um corpo espiritual rejuvenescido, aptos para desfrutar de tudo aquilo que pode ser experimentado.
Os filósofos medievais acreditavam que teríamos, no céu, a idade de 33 anos, considerada a idade ideal, de maturidade, reflexos da duração da vida terrena de Jesus Cristo. Uma lenda chamada “A corrente purificadora” diz que “Aqueles que viveram até a idade adulta, serão trazidos de volta na idade de quarenta anos; aqueles que morreram crianças serão trazidos com a idade de quinze anos; todos viverão felizes com suas famílias e amigos”.
As imagens, os sons e as palavras são tatuados em nosso interior. Nós temos uma arca de tesouros que nos acompanha na jornada. De vez em quando preciso ouvir uma suave melodia, ver uma determinada cena de um filme, reler um trecho marcante de um livro ou apreciar um quadro que fala comigo.
O poeta Tennyson dizia que nem o mundo natural e nem a religião tinham a palavra final sobre a vida e sobre Deus – devemos escutar ambos a fim de compreender: um poeta viajando pela mudança das estações ou o verso de um hino apontam para o alvo maior.
Não consigo compreender as pessoas que não se encantam com a natureza, os livros, as músicas, os filmes e as pinturas. Encontro beleza e conforto na arte e na natureza, e direção na Bíblia. E assim prossigo a minha dança, exultante, balançando o meu corpo rechonchudo ao som de “Eternamente Jovem”, enquanto meu pé direito diz “Aleluia” e o meu pé esquerdo “Amém”.

(Trecho extraído do livro "Relíquias de Uma Terra Estranha" de Samuel Rezende)

sexta-feira, janeiro 14, 2011

A Abertura

Azar Nafisi é uma escritora iraniana, que foi professora de língua inglesa na Universidade de Teerã e escreveu o Best-seller “Lendo Lolita em Teerã”, O livro conta a história de sete mulheres, estudantes de literatura que se reúnem escondidas para ler livros proibidos: literatura clássica. Na introdução do livro, Nafisi escreve: “O que estamos procurando na literatura de ficção não é a realidade, mas uma revelação da verdade”.
            Para mim a frase de Nafisi se estende a todas as manifestações artísticas. Procuro a abertura, a fresta no muro que possibilite visualizar a luz do sagrado naquilo que a igreja considera profano. ©

A Lenda do Pianista do Mar

Título Original: La leggenda del pianista sull’oceano
Direção: Giuseppe Tornatore
Gênero: Drama/Musical
Tempo de Duração: 126 minutos
Ano de Lançamento: 1998
Sinopse: Um garoto nasce em pleno alto-mar, ganhando o nome do ano em que nasceu: 1900. A criança cresce num mundo encantado de fortes ventos tempestuosos e cobertas balançando, conhecendo toda a existência disponível a seu toque nos confins do transatlântico em que nasceu. Já crescido, seu talento natural no piano chama a atenção da lenda do jazz Jelly Roll Morton, que sobe a bordo para desafiar 1900 para um duelo. Indiferente com sua súbita notoriedade, 1900 mantém uma fixação pelo mar, sendo sempre seduzido pelos sons do oceano.

O Bode Expiatório (René Girard)



sexta-feira, janeiro 07, 2011

Portador

             Nós, freqüentemente, lamentamos o fato de que não compreendemos Deus. Não entendemos porque não responde uma oração. Falamos sobre o seu movimento no mundo, mas não concordamos com a forma que conduz a nossa história.
As coisas acontecem, aparentemente sem nenhuma razão, e o cérebro tenta fazer a ligação entre o acontecimento e Deus, mesmo que a situação pareça cruel. “Por quê? Por quê?”, nós gritamos. “Mostre-nos a sua glória”, clamamos como Moisés. E Deus desliza na névoa, deixando traços e indícios insuficientes para destruir as dúvidas.
            O mundo evangélico é dividido entre sagrado e profano, religioso e secular. Isso leva a dicotomia sobre a realidade. Ciências versus fé, estado versus igreja, entretenimento cristão versus entretenimento secular. Eu não consigo ver o mundo dessa maneira. Se o mundo pertence a Deus (Sl. 24:1), e se Deus é onipresente, como pode haver tempo, lugar ou maneira de pensar que esteja ausente da sua presença? Este mundo é uma mistura inextricavelmente interligada do bem com o mal. Às vezes o profano não é antítese do sagrado, mas portador do mesmo. ©

A Fraternidade é Vermelha

Título original: Trois couleurs: Rouge / Three Colors: Red
Direção: Krzysztof Kieslowski
Gênero: Drama
Tempo de duração: 100 minutos
Ano de lançamento: 1994
Sinopse: Fraternidade é Vermelha é a conclusão da monumental Trilogia das Cores, do mestre polonês Krzysztof Kieslowski; que tem como tema as cores e os lemas nacionais da França: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Valentine é uma jovem modelo que vive em Genebra. Certo dia, ela atropela uma cachorrinha e, preocupada, sai em busca de seu dono. Assim, conhece o homem que mudará a sua vida: um juiz aposentado que passa os dias espionando as conversas telefônicas de seus vizinhos. É o início de uma história de redenção, compaixão e perdão sobre a comunicação entre os homens.

O Amor nos Tempos do Cólera (Gabriel Garcia Márquez)


domingo, dezembro 05, 2010

Deus: O Visitante Inesperado

Quando falamos em filmes de Natal, a maioria das pessoas pensa em Charlie Brown, Frank Capra ou algo semelhante. Mas a época não é sobre luzes cintilantes, neve, reuniões de família e presentes. É sobre a tensão da espera, a expectativa de dias melhores, a renovação de todas as coisas, a reconciliação – pois Deus se fez homem abrindo um novo caminho.
Este ano me dediquei a escrever o livro “Um Grito de Ausência” e, conforme o prefácio, “Tento costurar o natural e o sobrenatural, corrigindo um pouco da distorção que a Igreja acabou provocando, entregando à natureza as mãos dos geólogos, biólogos e físicos e a arte as mãos dos críticos. Por que nós, cristãos, ainda insistimos em dividir a cultura em sagrada e profana? Como construir uma ponte entre estes dois mundos?”
Brevemente postarei um trecho do livro. Por enquanto, indico alguns filmes que capturam um pouco do “espírito natalino”. Eles não são filmes cristãos ou filmes de natal. Mas Deus costuma entrar em ambientes inesperados.

Vermelho Como o Céu: É inspirado na vida de Mirco Mencacci, famoso editor de som. Aos oito anos de idade, um acidente com uma espingarda faz com que perca a visão. Ele é mandado para uma instituição especializada. Amizade, imaginação e o dom especial contagiam as outras crianças, e a criatividade quebra as barreiras de um mundo escuro e fechado. Enquanto a escola tenta impedir a concretização dos sonhos, Mirco e seus amigos desenvolvem o talento que Deus lhes deu.

Cortina de fumaça: Paul é um escritor que perdeu a esposa, e desde então não é mais o mesmo. Auggie é o dono da tabacaria, amigo de Paul. Todas as manhãs, a mesma hora, Auggie tira uma foto que enquadra a rua e a sua loja. Um dia, Auggie mostra a Paul o álbum com as inúmeras fotos. Paul folheia aquelas páginas sem deter-se para analisar as imagens, afinal, todas podem ser resumidas em uma. Auggie pede que ele olhe com mais atenção, pois mesmo sendo fotos do mesmo lugar, elas são diferentes: a mudança de iluminação, as estações do ano, às vezes as mesmas pessoas aparecem, às vezes elas desaparecem. Então, em uma das fotos, Paul descobre que sua esposa foi fotografada.
Muitas vezes caminhamos assim. Atenção focada em apenas um plano. E os detalhes que alteram e mudam o quadro são, simplesmente, ignorados. O filme também trabalha com a reconciliação.

O pequeno italiano: Vanya é um garoto de seis anos que mora em um orfanato russo. Após a visita de um casal de italianos que resolve adotá-lo, ele ganha dos demais órfãos o apelido de o pequeno italiano. Ao ver que a mãe de um ex-órfão, que fora adotado, apareceu no orfanato querendo o seu filho de volta, o menino acredita que isso também pode acontecer com ele. Vanya resolve procurar a mãe. Sendo perseguido por uns, ajudado por outros, o persistente Vanya prossegue em sua jornada.
O Pequeno Italiano é a odisséia de um garoto em busca de dias melhores ao lado de sua mãe. Uma encantadora jornada de esperança e persistência, temperada com o estilo Dickens.

O solista: Nathaniel Ayers (Jamie Foxx), um morador de rua, é um músico dotado com um raro talento. Steve Lopez (Robert Downey Jr.) é o colunista de um grande jornal que, andando pela cidade, encontra Ayers vestido em trapos e tocando Beethoven em um violino de duas cordas. Lopez quer saber por que este homem talentoso tornou-se uma pessoa de rua, e fica perturbado com a esquizofrenia do músico.
Ayers era uma criança prodígio, que ganhou o direito de entrar na prestigiada universidade Julliard. Mas ele começou a ouvir vozes e vivenciar crises de medo paralisante e claustrofobia. Sozinho e esquizofrênico ele vive nas ruas. Ele explica que ao ar livre, sente a presença de Deus. Ayers ama Beethoven, e torna real a frase de Shakespeare: “A música acalma o coração selvagem”, até mesmo de uma pessoa mentalmente doente.
O que começa como um simples artigo de jornal evolui para uma amizade. A vida de Lopez também é uma série de fracassos e decepções. Ele é um marido fracassado e pai ausente, um desencantado colunista. No final, quem mais mudou foi Lopez.

Paris, Texas: Paris, Texas é um road movie que começa no deserto desolador e escaldante do Texas, depois vira intenso drama familiar que finda no reencontro com o passado. É um retrato impressionante de um homem que precisa refazer a sua história.
Travis (Harry Dean Stanton) é um homem angustiado, despido da memória e sem um objetivo na vida, perambulando por um cenário interior e exterior, desolador. Ele caminha no deserto de Mojave, trajando um terno surrado e um boné de beisebol vermelho empoeirado, a pele do sol castigada pelo sol do deserto, a barba desgrenhada e os olhos injetados de um peregrino completam a sua figura. Travis é um solitário fugindo do passado. Seu percurso silencioso varre a imensidão do deserto.
Travis tentou fugir do passado caminhando rumo a um território desconhecido. Agora é preciso encarar a dor do abandono, superar a perda da mente atormentada pela dor da culpa, enfrentar o passado.
Do terrível naufrágio que invadiu a sua vida, Travis conseguiu salvar uma fotografia de Jane e seu filho. É a sua Ítaca. A ilha da beleza perdida. É preciso coragem para voltar. É preciso determinação para procurar corrigir o erro. É preciso humildade para declarar a sua parcela de culpa. É preciso que haja esperança para enfrentar a sombra e a luz; a mentira e a verdade; a ira e o amor.
A esplendorosa, melancólica e delicada música de Ry Cooder, o blues tocado só com cordas se encaixa perfeitamente na crueza do deserto.

Feliz Natal e até breve.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Um Feliz Ano Novo!

Por que os salmos são os livros mais lidos da Bíblia? Creio que uma das pistas é que eles contêm toda a experiência humana, do desespero à alegria, da gratidão à raiva, da celebração a beleza da natureza a perguntas sem respostas sobre a violência. As pessoas gostam de saber que há três mil anos alguém estava sentindo a mesma coisa e orando. A vulnerabilidade é exposta e permite afastar a cortina e vislumbrar que Deus está ali.
Curiosamente, os salmos me levam a aturar a igreja, esse amontoado de cantores ruins que fazem um ruído maior do que a soma de suas vozes débeis.
Para cada alma que exclama: “Fala Senhor, porque o teu servo ouve”, há dez que dizem: “Ouvi, Senhor, pois fala o teu servo”.
Somos levados, passo a passo, e diariamente, a técnicas de sucesso, e assim esperamos que se pudermos ligar os fios certos, os nossos desejos serão atendidos. A igreja absorveu o barulho consumista e materialista do século XXI.
Orar é deixar Jesus entrar em nosso coração. Jesus vem até nós, Ele bate, e nós devemos abrir a porta dos nossos corações (Ap. 3:20). Não é a nossa oração que move o Senhor. É Jesus que nos move a orar.
E mesmo quando perguntamos, “Será que Deus vai me ouvir? A minha fé é tão pequena”, podemos repousar no fato de que Ele ouve. Se temos fé suficiente para orar, temos fé suficiente para sermos ouvidos. A essência da fé é abrir a porta. Esta é a prova de que a fé ainda está viva.
O problema não é se Deus me ouve. Será que eu ouço Deus? Quando eu oro, exponho a minha nudez? Costumo revelar os segredos que tento esconder de mim mesmo ou temo desagradar-lhe expondo a lama na qual vivo me espojando?
A oração é uma ferramenta para chamar a atenção de Deus ou uma reação à sua presença?
Se a oração envolve a presença de Deus, ela implica em que algo inesperado e não planejado pode acontecer. A presença de Deus pode me surpreender em qualquer esquina, e eu só posso esperar, mantendo a minha atenção focada. Eu não o posso controlar, Deus se aproxima como a luz do sol que vem beijar a terra, e eu não posso continuar crendo que a luz da minha frágil lanterna possa revelá-lo.
Confesso que raramente sinto a presença de Deus nos santuários ou em ambientes cuidadosamente planejados. A maior parte do tempo ele me pega desprevenido, no meio dos meus dias comuns. “Tu me farás ver os caminhos da vida; na tua presença há plenitude de alegria; na tua destra, delícias perpetuamente” (Sl. 16:11). Mesmo quando mancho o silêncio com o barulho do mundo.
Malcolm Muggeridge disse que: “Um dos sistemas mais eficazes de defesa contra as incursões de Deus tem sido a religião organizada. As várias igrejas têm fornecido um refúgio para os fugitivos de Deus, a Sua voz se afoga no canto, o Seu cheiro se perde no incenso, o Seu propósito é obscurecido e confundido nos credos, dogmas, dissertações e outros pronunciamentos sacerdotais”.
Escrevo estas linhas após visitar uma igreja evangélica. O grupo de louvor abriu caminho através da primeira canção. As pessoas, bem vestidas, exalavam o odor da limpeza, as vibrantes aleluias pareciam espirituais. Deixei os meus olhos passearem pelo templo, e desviei os meus ouvidos do cântico para os sussurros. A mulher ao meu lado mostrava um papel para o marido. Um casal atrás de mim recriminava a atitude do filho. Poucos pareciam dispostos a focalizar o motivo do louvor. As aleluias soavam como um velho disco de vinil furado, repetindo mecanicamente a mesma frase.
Muggeridge parece ter razão. O melhor lugar para se esconder de Deus pode ser uma igreja. “Vocês fizeram da casa de meu Pai um lugar de comércio e reunião social. As suas roupas estão limpas, mas o coração também está? Você presta atenção em coisas sem importância e se esquece das coisas duradouras. Vocês falam as palavras certas, mas os seus corações estão longe de mim”.
Tenho enorme dificuldade com igrejas grandes. Sinto-me atraído para as pequenas igrejas. Entre poucas pessoas é difícil se esconder.
Mesmo assim, já vivi momentos inesquecíveis dentro de igrejas grandes e médias. Certa vez, de repente, eu fiquei fascinado pela palavra “Jesus” que estava na tela do retroprojetor. Jesus. Como é estranho ver esta enorme coleção de pessoas, de raças e classes sociais diferentes, apaixonadamente cantando sobre um rapaz judeu chamado “Jesus”.
O caos do meu cérebro deu lugar a uma espécie estranha de epifania. Por um breve momento eu vislumbrei os fios que conectam a minha vida, o mundo, o tempo e a cruz. Fragmentos de imagens ricochetearam pelo meu cérebro. Como uma pintura de Kandinsky, uma tapeçaria desarrumada, com linhas e cores que, inexplicavelmente, faz sentido. Uma comunhão misteriosa que transcende rótulos, categorias e racionalidade.
Apesar do abismo, como diria Emily Dickinson, da solidão, dos momentos de isolamento e desespero, e da desafinação vocal, há o sentimento comum e a memória universal. Então acrescento a lista inicial, o calafrio a percorrer meu corpo, as lágrimas a brotar nos olhos e a estranha sensação de invadir um lugar sagrado. Deus redime a minha insignificância.

(Trecho do livro "Relíquias de uma terra estranha" de Samuel Rezende)

sexta-feira, novembro 28, 2008

Fragmentos


Tenho uma fé lúcida. Aceito a dúvida como um sinal da fé. Se a fé fosse o sinal de uma certeza, seria fácil o caminho da eternidade. A fé é um ato radical que não se confina no quotidiano. É fácil se entregar à rotina ou aos rituais. O difícil é cultivar esse abandono ao poder do Espírito.
A escritora Flannery O’Connor disse que “Chega-se a uma razoável certeza a respeito do caminho a trilhar, mas é um percurso no escuro. Não conte que a fé tornará as coisas mais claras. Trata-se de confiança, não de certeza”.
O pensamento é um poderoso e precioso poder, mas é um horizonte não uma fundação. Não possui solidez para alicerçar a alma, mas alarga a visão. Amplia o nosso alcance mais do que o fixa. Amplifica o problema, sem resolvê-lo. Fé não é um asilo para os que tem preguiça de pensar.
Dostoiévski dizia que “Não é como criança que creio em Jesus Cristo e o confesso. Meus hosanas nasceram de uma fornalha de dúvidas”.
Frederick Buechner dizia que as “dúvidas são as formigas nas calças da fé. Mantêm-na acordadas e em movimento”.
Como disse o poeta Rainer Maria Rilke, é melhor viver com uma pergunta embaraçosa do que negar qualquer uma das realidades dentro dela.
Ao contrário de outros livros proféticos, Habacuque é mais uma oração do que uma profecia. O preocupado profeta ousa dialogar com Deus, enfrentando-o com perguntas que parecem desafiar o amor de Deus. Costurando perguntas difíceis e respostas divinas, o método foi denominado “rabínico” ou “socrático”, e foi usado por Jesus com muita eficiência (Mt. 24:42). A fé de Habacuque é tão profunda que ele pode expressar honestamente as suas dúvidas e ficar satisfeito quando o Senhor responde com novos apelos à fé.
Mesmo através da lente grossa do racionalismo e do materialismo, podemos exercitar o olhar da fé. O apóstolo Paulo alertou que o olhar de fé de Abraão foi considerado como justiça. O olhar o justificou.
O discurso de Deus para aquela família estéril é um convite ao abandono. Sair do presumível mundo das normas e segurança. A ordem é concisa e peremptória. Ela não se baseia na lei ou disciplina, mas na promessa. Partir é abandonar a esterilidade. A fé repousa na contradição: ficar em segurança é permanecer estéril, correr o risco é ter esperança. A fé implica em uma jornada rumo ao desconhecido. É preciso dar o primeiro passo, sem saber para onde estavam indo, quando chegariam lá ou como saber que já chegaram. A fé não é a posse do mapa, mas a viagem.
A jornada teve várias etapas. Eu gosto de pensar nisso. A fé como verbo ao invés de substantivo, um processo em vez de uma posse. Eu tenho a fé que meu amigo é meu amigo. É possível o engano. É possível que ele tenha outra intenção além da simples amizade. Mas as nossas conversas, os conselhos, o silêncio sem embaraço, me leva a crer na sua amizade. Eu não posso prová-la, mas a experimento.
Fé inclui dúvida. Paul Tillich dizia que a dúvida não é o oposto da fé, e sim um elemento.
Fé é caminhar, um passo de cada vez. Às vezes parece uma rodovia devidamente sinalizada, em outras, é uma trilha cheia de folhas, galhos e armadilhas. A fé é uma resposta a um convite.
Como filhos da modernidade, esse parece um conceito curioso. Estamos habituados a pensar em nossas próprias realizações, as nossas próprias agendas, os nossos próprios objetivos. A história de fé de Abraão é um lembrete útil de que não somos arquitetos da nossa própria vida ou do mundo. Nós somos herdeiros de uma promessa, e não pode haver promessa sem que haja um autor. A promessa de segurança, bem-estar, prosperidade e proeminência são dons a ser colhidos durante e ao fim da viagem. É o que torna a viagem sagrada e não apenas um vadiar através dos dias.
Crença centra-se em declarações. Fé implica em ação.
Thomas Merton falou da “possibilidade de um diálogo ininterrupto com Deus”. Um diálogo de amor e de escolha. Um diálogo de confiança e esperança. Um diálogo que permita soltar-se como um falcão nas correntes de ar.
O antônimo de fé não é dúvida, mas medo.
(Trecho extraído do livro "A sobrevivência da fé" de Samuel Rezende)

terça-feira, janeiro 08, 2008

UM 2008 MAIS DO QUE SIGNIFICANTE



Para W. H. Auden, a nossa ordinária existência é chacoalhada na época de Natal: “a festa de Natal transforma a memória”. O interessante no seu poema não é que ele fala dos eventos da natividade mas por prolongar o impacto da encarnação em um mundanismo diário.
Para Auden o Natal é mais do que o ápice de uma comemoração, é um lembrete anual de que Deus agiu e está agindo “para redimir a insignificância”, a lama monótona de nossas rotinas.
Os críticos que bajulavam Auden, criticaram o seu retorno à igreja. Diziam que era um ato de covardia intelectual e desprezaram-no. Os intelectuais liberais que o aplaudiram quando dissecou a passionalidade dos traumas sociais dos anos 30, agora bufavam com seu novo estilo divertido, frívolo e irrelevante.
Um artigo escarnecedor perguntava: “O que terá acontecido com Wystan?”
O certo é que este grande poeta não passou em branco. Neste poema ele descreve o fervor religioso do feriado e a depressão pós-natal:
As ruas são muito mais estreitas do que nós recordamos;
Nós tínhamo-nos esquecido
O escritório era tão comprimido como este.
Àqueles que viram
A criança, de qualquer modo não ofuscante, incredulamente,
Tempo que é, em um sentido, o tempo tentando de tudo.
Para Auden, a encarnação infunde significado a existência histórica. O hoje foi redimido, e a tarefa dos cristãos é participar deste trabalho lento:
Entrementes
Há contas a ser pagas, máquinas para serem consertadas,
Verbos irregulares a aprender, o Tempo redime
A insignificância.
Estava olhando o quadro “A queda de Ícaro” de Pieter Brueghel, a representação mais inesperada deste mito. O mar, a natureza e a cidade dominam a cena. Destaca-se um lavrador indiferente, um pastor a olhar para o céu, mas para o lado errado; atrás dele, na água, mas quase sem se ver, o Ícaro caído. O quadro parece querer ignorar a presença de Ícaro: é um ponto no canto inferior direito (como uma assinatura), caído na água, de pernas para o ar. A insignificância de Ícaro contém um sentido filosófico-moral. As pessoas nem notaram o acontecimento.
Inúmeras estimativas foram feitas, tentando datar o universo. O cristão afirma que em um momento especial, antes do tempo, Deus num rasgo de criatividade, chamou a existência – águas, terra, plantas, animais e seres humanos – não em dias comuns. A Bíblia é pródiga em declarações de que o tempo de Deus não é o nosso tempo. Mil anos não é mais do que um piscar de olhos a luz de Deus.
Quando Deus criou o universo, foi como se uma flor minúscula desabrochasse em grandes nuvens de gás de hidrogênio e galáxias rodopiando. Deus criou os sistemas solares e planetas, e este planeta no qual caminho enquanto a terra faz a sua graciosa dança em torno do sol.
E Deus examinou a sua intrincada criação e considerou-a boa. Cada partícula subatômica da criação foi examinada pelo Criador. De uma partícula destinada a viver alguns segundos a uma galáxia com uma extensão de vida de bilhões de anos.
Houve um momento quando todas as estrelas prenderam a respiração, as galáxias pausaram a sua dança por uma fração de segundos, e a Palavra que as tinha chamado à existência, foi silenciosamente aninhar-se no ventre de uma jovem. E o universo respirou novamente.
Um poder além da imaginação entregou-se a impotência de uma criança em gestação, informe, nadando no grande oceano do líquido amniótico, cego, surdo e mudo. No ritmo lento do crescimento de um embrião humano este poder aguardou nove meses para nascer.
Jesus Cristo, a segunda pessoa da trindade, criador do universo, visitava este pequeno planeta, limitado ao tempo, espaço e ao universo humano.
O Verbo-Criança, a palavra divina fez-se carne. Devemos ser gratos por este presente sagrado. Para Auden a doutrina da encarnação significa que quando a palavra fez estadia entre nós, os pontos fracos e os limites do mundo adquiriram uma cor inesperada. No coração, o cristianismo é uma vigorosa religião materialista, porque afirma que o sagrado entrou no mundano.
A palavra divina introduziu-se furtivamente no mundo, como um bebê em Belém. Depois desse acontecimento surpreendente, devemos permanecer abertos à possibilidades, surpresas e maravilhas.
A principal crise do nosso tempo não é energética ou ecológica, mas uma crise espiritual. A aquiescência da cultura ocidental para o materialismo resultou em uma profunda negligência da vida transcendente que ironiza a adoração, a encarnação e a tentativa de manter um padrão moral.
Não há como ressacralizar o cosmos. Mas podemos procurar pistas nas experiências comuns da vida. Há sinais da transcendência em nosso desejo de ordem, no jogo do amor, no uso do humor e em nossas experiências de esperança e desespero.
O sofrimento pode ser uma ferramenta para avançar a um nível mais profundo de fé, consciência e introspecção. A vida contemplativa pode começar em uma experiência de dor. Para Evelyn Underhill, o primeiro estágio é a conversão. O teólogo Paul Tilich dizia que estamos estagnados até que em um esforço crítico confrontamos o vazio e o silêncio. Somente abraçando a própria inadequação experimentamos o crescimento e uma nova vida.
Gosto de Kierkegaard. Conheci os seus textos no período em que li J. D. Salinger e seu cultuado personagem rebelde Holden Caufield. As arremetidas espirituais e intelectuais de Kierkegaard carregam o cheiro da rebelião da juventude, um noivado com a recusa radical de encarar o mundo como ele é.
O salto da fé de Kierkegaard introduz a transcendência do amor divino. Ele não traz apenas a lei moral para a terra, mas, paradoxalmente, introduz uma demanda para amar além da possibilidade humana. Nós somos incapazes de satisfazer a exigência da lei moral. Mas somos incapazes de viver sem ela. Se optarmos pela esfera ética da existência, vivendo como um asceta, experimentamos o sabor do desespero.
No cristianismo o indivíduo atinge a intensa e profunda reflexão: “ser cristão é uma determinação dialética, pois o Indivíduo se torna cristão pela conversão. A fé é enraizada na infinita dialética da incerteza”.
O mundo moderno tenta isolar a dor, anestesiar o sentimento e finda provocando mais sofrimento.
A vida é cheia de um sol radiante, de tempestades incríveis e o que vemos pela rua é gente correndo, gente com pressa porque é sempre ali na frente que está a nossa solução. O que precisamos é morar, comer e consumir. E para isso temos que estudar e trabalhar. Uma equação bastante simples e lógica. Um bebê não exporia melhor. Temos simplesmente que resolver o rumo que desejamos. Desejamos estar nesse mercado competitivo? Desejamos estar de gravata e com o cartão de crédito sempre na iminência de estourar?
Vejamos uma outra pessoa que vá na contramão de tudo, que resolva, por exemplo, recolher-se a um mosteiro e dedicar sua vida a Deus. Não me parece que duvidemos da sanidade de um frade ou de um pastor. Parece que está tudo certo, tecnicamente com ele, esse homem igual aos outros apenas escolheu um caminho que não é o da maioria, mas é perfeitamente aceito.
William James, norte-americano que foi um dos grandes fundadores da moderna psicologia científica, afirmava, e cito de memória, que “não é psicologicamente possível ao homem viver sem acreditar na sua própria imortalidade”.
“No fundo, o que se oculta sob toda esta problemática é o problema da existência da alma: nós temos ou não temos uma alma? Mas não é apenas o problema da existência da alma: é também o problema das relações entre a consciência, a mente e o cérebro/corpo”.
“Desenvolvendo uma comparação sugerida por Rupert Sheldrake... ninguém se lembraria de supor que a rádio e os seus mecanismos internos são a fonte das vozes e das músicas que dele saem; ninguém se lembraria de supor que a televisão e os seus mecanismos internos são a fonte das imagens e dos filmes que dela saem; mas é curioso verificar como tão facilmente cremos que o cérebro e os seus mecanismos internos são a fonte da consciência! Mas a verdade é que a rádio, a televisão e o cérebro são apenas aparelhos de recepção e de emissão: de sons, de imagens e sons, e da consciência”.
Muitas vezes nos fechamos em nosso viver hedonista, circunscritos que aos nossos desejos, à vida que levamos, e que para nós, por ser tudo o que temos, em parte limita o mais que poderíamos ser, ou mesmo ter, no que diz respeito às experiências que viríamos a acumular. Quando nada interfere, também pouca coisa muda. Quando só há ruídos, o silêncio não é um dado de realidade, porque já está tão internalizado em nós, que apenas o barulho aparenta ter força de verdade.
Por que os salmos são os livros mais lidos da Bíblia? Creio que uma das pistas é que eles contêm toda a experiência humana, do desespero à alegria, da gratidão à raiva, da celebração a beleza da natureza a perguntas sem respostas sobre a violência. As pessoas gostam de saber que há três mil anos alguém estava sentindo a mesma coisa e orando. A vulnerabilidade é exposta e permite afastar a cortina e vislumbrar que Deus está ali.
Curiosamente, os salmos me levam a aturar a igreja, esse amontoado de cantores ruins que fazem um ruído maior do que a soma de suas vozes débeis. Em um culto de adoração eu posso sentir – a despeito desse aspecto – a presença de Deus.
Apesar do abismo, como diria Emily Dickinson, da solidão, dos momentos de isolamento e desespero, e da desafinação vocal, há o sentimento comum e a memória universal. Então acrescento a lista inicial, o calafrio a percorrer meu corpo, as lágrimas a brotar nos olhos e a estranha sensação de invadir um lugar sagrado.

(Trecho do livro “Relíquias de uma terra estranha” de Samuel Rezende)