segunda-feira, março 28, 2011

Kolya - Uma História de Amor

Título original: Kolya
Direção: Jan Sverak
Gênero: Drama
Tempo de duração: 101 minutos
Ano de lançamento: 1996
Tamanho: 698 mb
Sinopse: Na República Tcheca durante o período de ocupação soviética, por motivos políticos um violinista é impedido de trabalhar. Certo dia conhece uma jovem russa que precisa de marido tcheco para regularizar sua situação. Por dinheiro, decide ajudar, mas a polícia desconfia e ele, de início, quer se ver livre da criança. A mulher foge e lhe deixa o filho Kolya. Apesar de solteirão convicto, a relação dos dois aos poucos se estreita e... Oscar de melhor filme estrangeiro".

Ortodoxia (G. K. Chesterton)


segunda-feira, março 21, 2011

A Lista

No filme “Manhattan”, dirigido e interpretado por Woody Allen, o personagem filosofa sobre o sentido da vida: “O que faz valer a pena viver a vida?”. Em seguida acrescenta: “As maçãs e as peras de Cézanne. Um solo de Louis Armstrong. Um filme sueco”.
            Também tenho a minha lista: a felicidade estampada no rosto da minha família, os filmes, os livros, os quadros, as músicas, os alimentos e a natureza. ©

Encontros e Desencontros

Título original: Lost in Translation
Direção: Sofia Coppola
Gênero: Drama
Tempo de duração: 105 minutos
Ano de lançamento: 2003
Sinopse: Bob Harris (Bill Murray) é uma estrela de cinema, que está em Tóquio para fazer um comercial de uísque. Charlotte (Scarlett Johansson), por sua vez, está na cidade acompanhando seu marido, um fotógrafo workaholic (Giovanni Ribisi) que a deixa sozinha o tempo todo. Sofrendo com o horário, Bob e Charlotte não conseguem dormir. Eles se encontram, por acaso, no bar de um hotel de luxo, e em pouco tempo tornam-se grandes amigos. Resolvem então partir pela cidade juntos. A eles junta-se uma jovem atriz chamada Kelly (Anna Faris), com quem vão viver algumas aventuras pela cidade de Tóquio.

Poemas (W. H. Auden)

segunda-feira, março 14, 2011

Realidade

Há algum tempo os cientistas imaginavam que teriam respostas para todas as perguntas. Não haveria mais incógnitas e mistérios. Hoje, sabemos que muitos detalhes sobre o mundo, o universo e os seres humanos não podem ser devidamente explicados pelo empirismo e o método científico, o “paradigma da realidade atual”.
A realidade é definida apenas por aquilo que podemos analisar racionalmente, pesar, observar, e medir em um laboratório? Ou existe mais que isso? Existe uma realidade maior e nem sempre acessível a razão humana? Uma pessoa racional pode acreditar em Deus e, automaticamente, em uma realidade que transcenda a razão humana?
            O físico Neils Bohr, pai da mecânica quântica, disse que a sua própria cosmovisão expandiu, quando ainda criança, contemplava um peixe nadando na lagoa da fazenda de sua família. Ele ficou olhando o peixe a nadar por horas a fio e, um dia, percebeu que o peixe não sabia que estava sendo observado. Os peixes desconhecem o que se passa fora da lagoa, ou seja, desconhece qualquer outra realidade que não seja a lagoa. Bohr começou a se perguntar se os seres humanos não seriam como os peixes, vivendo em um universo expansivo, com múltiplas dimensões da realidade, mas apenas conscientes dos seus limitados quadros de referências. ©

Dogville

Título original: Dogville
Direção: Lars Von Trier
Gênero: Drama
Tempo de duração: 171 minutos
Ano de lançamento: 2003
Sinopse: Em plena década de 30, Grace (Nicole Kidman) é uma fugitiva que chega à isolada cidade de Dogville após fugir de gângsters. Encorajada por Tom (Paul Bettany), o porta-voz da cidade, Grace faz com a população local um acordo informal: eles a ajudam a se esconder e, em troca, ela trabalha para eles. Entretanto, quando a busca por Grace se intensifica a população local começa a querer um acordo melhor junto a Grace, devido ao risco que todos eles estão correndo por escondê-la. É quando Grace percebe que a aparente boa vontade de Dogville tem um preço.

Rumo ao Farol (Virginia Woolf)

segunda-feira, março 07, 2011

Milagre

Dizem que um grupo de jovens perguntou a um ancião: Será que Deus faz milagres? O ancião respondeu: Depende do que vocês entendem por milagre. Algumas pessoas dizem que um milagre é quando Deus faz a vontade do povo. Nós dizemos que um milagre é quando as pessoas fazem a vontade de Deus. ©

Dançando no Escuro

Título original: Dancer In The Dark
Direção: Lars Von Trier
Gênero: Drama/Musical
Tempo de duração: 140 minutos
Ano de lançamento: 2000
Sinopse: Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, Dançando no Escuro é uma das obras-primas do polêmico cineasta Lars Von Trier (Dogville). A cantora Björk está impressionante como Selma, uma imigrante que trabalha numa fábrica no interior dos Estados Unidos. Vítima de uma doença hereditária, ela está perdendo a visão e, para evitar que o filho tenha o mesmo destino, economiza todo o seu dinheiro para operá-lo. Apaixonada pelos musicais de Hollywood, Selma mistura realidade e fantasia. Porém, a sua vida muda radicalmente quando é acusada injustamente de um crime.

Poesia de Anna Akhmatova

domingo, fevereiro 27, 2011

Fragilidade

Há poucos dias um pardal doente me visitou. Tratei-o, improvisando um ninho e tentando alimentá-lo. Alguns dias depois lá estava a avezinha com os olhos cerrados e os pés juntos, como se quisessem despedir-se depois de infinitos pousos em lugares tão diferentes e distantes. O espírito do pequenino pardal já não estava mais onde o corpo jazia em repouso. Possivelmente tinha voado rapidamente para outros lugares, uma outra realidade, aproveitando a forte ventania que lamentava o seu canto indiferente.
            Eu pensei inevitavelmente, na minha morte e como seria o céu dos pardais. Eu pensei se seria assim numa terça-feira cinzenta, úmida e quente e diante de um caminhante distraído. Eu pensei se seria possível chamar a atenção do mundo para a sua fragilidade inquebrantável. ©

Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas

Título original: Big Fish
Direção: Tim Burton
Gênero: Comédia/Drama
Tempo de duração: 125 minutos
Ano de lançamento: 2003
Sinopse: Ed Bloom (Albert Finney) é um grande contador de histórias. Quando jovem Ed saiu de sua pequena cidade-natal, no Alabama, para realizar uma volta ao mundo. A diversão predileta de Ed, já velho, é contar sobre as aventuras que viveu neste período, mesclando realidade com fantasia. As histórias fascinam todos que as ouvem, com exceção de Will (Billy Crudup), filho de Ed. Até que Sandra (Jessica Lange), mãe de Will, tenta aproximar pai e filho, o que faz com que Ed enfim tenha que separar a ficção da realidade de suas histórias.

Os Intelectuais (Paul Johnson)

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Observar

Uma garoa desce sobre a cidade. Um homem está debaixo da árvore em frente a minha casa. Não sei se está usando a árvore como um guarda-chuva ou se está esperando alguém. Ele assobia e me faz lembrar a canção “Lovely chef” do Alison Goldfrapp. Um assobio melancólico acompanha o início da música, levando os pensamentos à borda do mundo.
Talvez seja fruto da timidez, o gosto por observar as outras pessoas. Algumas vezes elas parecem sonâmbulas, embrulhadas num universo singular, entre os sons e o fluxo.
            A garoa me faz lembrar um vôo entre São Paulo e Cuiabá. O aeroporto está lotado, pessoas e ruídos frenéticos se misturam. Lá fora uma garoa molha a pista. Atrasos e cancelamentos de vôo são comunicados. Dentro do avião um nó no estômago parece encontrar eco em todo o corpo. A aeromoça mostra os habituais lembretes para procedimentos de emergência. A grande nave abre caminho para a posição de decolagem, os jatos estridentes aceleram. A íngreme subida é áspera, nuvens parecem ser rasgadas ao meio. Aos poucos o avião está nivelado, olhando para baixo, as nuvens parecem pastagens com ranhuras. Dentro de alguns minutos a turbulência será esquecida e a placidez de um solo branco a se perder de vista, atrai a atenção.
            Quem sabe o último momento seja assim. O temor desaparece em questão de momentos, então se desvenda a escondida paisagem da paz. ©

Bagda Café

Título original: Out of Rosenheim / Bagdad Cafe
Direção: Percy Adlon
Gênero: Comédia/Drama
Tempo de duração: 91 minutos
Ano de lançamento: 1987
Sinopse: Depois de brigar com seu marido e abandoná-lo na estrada, a turista alemã Jasmin (Marianne Sägebrecht) caminha pelo deserto do Arizona até chegar ao posto-motel Bagdad Café. Recebida com aspereza por Brenda (CCH Pounder), a dona do local que acabou de colocar o marido para fora de casa, Jasmin aos poucos se acostuma e vai conquistando a simpatia dos clientes e hóspedes do motel, como Rudy Cox (Jack Palance), ex-ator de Hollywood e pintor em crise. Com o tempo, apesar das diferentes personalidades, Jasmin e Brenda tornam-se boas amigas e transformam o Bagdá Café num lugar mágico, onde cada um pode ser feliz à sua maneira. Foi indicado ao oscar por melhor canção original pela música "Calling You". Ganhou 12 prêmios, e 2 indicações em outros festivais.

Os Irmãos Karamazov (Dostoiévski)


segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Silêncio

Os homens têm fugido do silêncio. As palavras escondem o que somos. Não queremos revelar, nem a nós mesmos, algumas coisas. Por isso nos escondemos atrás de conversas fiadas. Tentamos fugir da nudez.
            Mas, é no silêncio que tenho encontrado algo maior do que este eterno burburinho. Enfrentar o silêncio pode ser embaraçoso quando fugimos de nós mesmos. Mas pode ser abençoado quando, sem nenhum medo, oramos clamando a presença dAquele que conhece todas as coisas. Uma espécie de doçura pode nos invadir, e a sensação de sujeira, que tentamos varrer para debaixo do tapete, desaparece. ©

Asas do Desejo

Título original: Der Himmel über Berlin / Wings of Desire
Direção: Wim Wenders
Gênero: Drama
Tempo de duração: 128 minutos
Ano de lançamento: 1987
Sinopse: Na Berlim pós-guerra, dois anjos perabulam pela cidade. Invisíveis aos mortais, eles lêem seus pensamentos e tentam confortar a solidão e a depressão das almas que encontram. Entretanto, um dos anjos, ao se apaixonar por uma trapezista, deseja se tornar um humano para experimentar as alegrias de cada dia.

Pensamentos (Blaise Pascal)

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Sensação

Muitas vezes as pessoas perguntam: “Como você pode ouvir a tua vida?” Como adquirir o hábito de fazer isso? Como manter os olhos e ouvidos prontos a detectar a presença de Deus ou a presença de algo mais? Aprendi que devo prestar atenção nos arrepios e nas lágrimas que vem aos olhos. Não podemos controlá-los, são inesperadamente desencadeados. Creio que, nestes momentos, sob a superfície das coisas, alguém está tentando falar com você ou sobre quem você é.
            Uma paisagem, uma música, um filme, um livro, um poema, uma pintura, um animal, uma árvore ou uma face que jamais viu pode desencadear aquilo que chamo de sensação de eternidade. Uma palmeira balançando ao vento ou um velho sapato abandonado pode chamar a atenção. É uma sensação particular, individual.
            Talvez a sensação seja o reflexo de uma delirante lembrança do Éden. Esta maravilhosa dança de seres humanos e animais, alegria e liberdade. Este grande reino pacífico, este grande jardim por onde Deus passeava ao cair da tarde. Um pequeno vislumbre de uma paisagem fechada. ©

Antes do Por-do-Sol

Título original: Before Sunset
Direção: Richard Linklater
Gênero: Romance
Tempo de duração: 80 minutos
Ano de lançamento: 2004
Sinopse: Dois jovens se encontram em Paris nove anos depois de passarem uma noite apaixonados pelas ruas de Viena. Muitas coisas aconteceram em suas vidas durante esse tempo, mas a pronta lembrança e as excelentes sensações que o novo encontro traz talvez provem que a paixão daquela noite foi mais importante do que eles julgavam.

O Senhor das Moscas (William Golding)

sexta-feira, janeiro 28, 2011

Película

Precisamos consentir que luzes lampejem em nós, permitindo ver – mesmo que por breves clarões na vida como numa escura sala de projeções, sacrificando nossas consolações vazias, nossas paixões condenadas a cinzas, nossa avidez pelo efêmero – Aquele que prefere ocultar-se e que, em seu pudor, é a Fonte permanente do nosso mais intenso fascínio.
            Como o apóstolo Paulo, precisamos ser cegados. Mas uma cegueira que nos liberte da escuridão que nos rodeia e nos conceda olhos capazes de ver através dessa fina película transparente situada entre o homem e Deus. ©

Antes do Amanhecer

Título original: Before Sunrise
Direção: Richard Linklater
Gênero: Romance
Tempo de duração: 105 minutos
Ano de lançamento: 1995
Sinopse: Jesse (Ethan Hawke), um jovem americano, e Celine (Julie Delpy), uma estudante francesa, se encontram casualmente no trem para Viena e logo começam a conversar. Ele a convence a desembarcar em Viena e gradativamente vão se envolvendo em uma paixão crescente. Mas existe uma verdade inevitável: no dia seguinte ela irá para Paris e ele voltará ao Estados Unidos. Com isso, resta aos dois apaixonados aproveitar o máximo o pouco tempo que lhes resta.

O Velho e o Mar (Ernest Hemingway)


sexta-feira, janeiro 21, 2011

A Lente

A arte nos leva a considerar a vida através da lente da história. A Bíblia é uma história. A Bíblia é a história do projeto redentor de Deus. Nós fazemos parte dessa história. A poetisa Denise Levertov dizia que a língua poética da história não é “uma examinação do que acontece, mas uma imersão no que acontece”. A Bíblia não é um manual de procedimentos ou uma coleção de lições morais, mas uma história que ainda se desenrola.
            A arte nos leva a considerar a complexidade do mundo, experimentar as nuances da vida e compreender que o mundo não é preto ou branco. Ao ler “O Grande Gatsby” aprendo quem Gatsby é, e desenvolvo uma simpatia que esfacela os julgamentos arrebatadores que emito quando vejo uma pessoa em apenas uma dimensão. A arte me leva a ver as pessoas com olhos mais benevolentes.
            A arte desenvolve a imaginação. A beleza dos relacionamentos, da criação e de muitos aspectos ordinários da vida podem facilmente ser negligenciados se não treinarmos os nossos olhos para ir além da primeira camada. ©

Além da Linha Vermelha

Título original: The Thin Red Line
Direção: Terrence Malick
Gênero: Drama/Guerra
Tempo de duração: 170 minutos
Ano de lançamento: 1998
Sinopse: Durante a Segunda Guerra Mundial, fica claro que o resultado da batalha de Guadalcanal influenciará fortemente o avanço japonês no Pacífico. Assim, um grupo de jovens soldados é enviado para lá, trazendo alívio para as esgotadas unidades da marinha. Lá os recém-chegados conhecem um terror que nem imaginavam, mas no meio deste desespero surgem fortes laços de amor e amizade.

Poesia (T. S. Eliot)


quarta-feira, janeiro 19, 2011

Eternamente Jovem

Eu era uma criança morando em uma pequena cidade do interior. Acostumado a ouvir no velho rádio Roberto Carlos, Wanderlei Cardoso, Jerry Adriani, Diana, Odair José, Secos & Molhados e outros artistas nacionais. Um dia ouvi a abertura de cordas de “Califórnia Dreaming” do The Mamas and The Papas. A harmonia voava nos ares, o doce anseio do poema lírico, o som da costa ocidental levou-me para longe das pequenas brigas com as outras crianças da escola.
Alguns anos depois, por volta dos 17 anos, em um salão de bar, de um velho jukebox uma canção saía e entrava em minhas veias com seus arranjos frescos, e as palavras que me pareciam poéticas, quebrando a solidão. Fui informado que era da banda Alphaville, “Forever Young”:

Vamos dançar com elegância
Vamos dançar por um instante
O paraíso pode esperar
Estamos apenas observando os céus.
Desejando o melhor
Mas esperando o pior
Você vai deixar cair a bomba ou não?

Nos deixe morrer jovens
Ou viver pra sempre...
A vida é uma viagem curta...

Eternamente jovem
Eu quero ser pra sempre jovem
Você realmente quer viver pra sempre?
Pra sempre e todo sempre
Eternamente jovem
Você realmente quer viver pra sempre
Eternamente jovem

Alguns são como a água
Outros como o fogo
Alguns são a melodia
Outros são o ritmo
Cedo ou tarde
Todos terão virado poeira
Porque não permanecem jovens?
É tão difícil ficar velho
Sem um propósito
Eu não quero ser sacrificado
Como um cavalo inútil
A juventude é como um diamante ao sol
E os diamantes são eternos

Tantas aventuras não aconteceram hoje
Tantas canções que esquecemos de tocar
Tantos sonhos aparecendo do nada
Nós os tornaremos realidade

Eternamente jovem
Eu quero ser pra sempre jovem
Você realmente quer viver pra sempre jovem?
Pra sempre e todo sempre
Eternamente jovem

Eu jamais esqueci o impacto desse som deslizando em mim e descobri como a arte pode, inesperadamente, entrar em nossas vidas, deixando uma marca inesquecível.
Tentando construir um acervo de vídeos das músicas que me marcaram, percorri o Youtube selecionando esses momentos mágicos. Ali estava o Alphaville com seu clip original, da década de 80. O vocalista Marian Gold, no frescor de sua juventude, e seus jovens companheiros de palco. Mas ali também estava alguns vídeos recentes, como a apresentação da banda em um festival de 2007. Eles cantavam “Eternamente jovem”, e confesso que as palavras me soavam como um melancólico desejo não atendido. O tempo passou, eles envelheceram. Tudo dentro do roteiro estabelecido. O jovem esbelto tornou-se um senhor rechonchudo. Mas a música permanece embriagantemente moderna.
O Alphaville foi o porta-voz do maior sonho humano: viver pra sempre. De preferência, jovem. As modernas clínicas de cirurgia estética, os spas e as academias de ginástica tentam deter, ou pelo menos, adiar, o inevitável envelhecimento do corpo. A ilusão de uma juventude eterna permeia a existência humana; continuamos a busca sem êxito da “fonte da juventude”.
Exercícios são elaborados, capas de revistas apresentam modelos com rosto sem rugas e corpos atraentes; fitas de vídeo, exercícios e cremes prometem rejuvenescimento, basta seguir a receita prescrita. Academias de ginástica e cirurgias plásticas tentam mascarar o envelhecimento.
“A juventude é como um diamante ao sol... E os diamantes são eternos... Eu quero ser pra sempre jovem”, cantava o cinqüentenário vocalista. Mas o corpo denunciava o desejo não realizado.
Aos cristãos foi prometido a vida eterna e um novo corpo. Seremos “revestidos da nossa habitação celeste” (II Cor. 5:1-8). O elemento mortal será “absorvido pela vida”. Qualquer que seja nossa aparência exterior, nossa intelectualidade e nossa natureza espiritual, no céu será a de um santo que é maduro e que tem as faculdades completas de um adulto, para que possa desfrutar tudo o que Cristo preparou para nós. Nossos velhos pais que, provavelmente, já perderam o vigor físico, estarão de posse de um corpo espiritual rejuvenescido, aptos para desfrutar de tudo aquilo que pode ser experimentado.
Os filósofos medievais acreditavam que teríamos, no céu, a idade de 33 anos, considerada a idade ideal, de maturidade, reflexos da duração da vida terrena de Jesus Cristo. Uma lenda chamada “A corrente purificadora” diz que “Aqueles que viveram até a idade adulta, serão trazidos de volta na idade de quarenta anos; aqueles que morreram crianças serão trazidos com a idade de quinze anos; todos viverão felizes com suas famílias e amigos”.
As imagens, os sons e as palavras são tatuados em nosso interior. Nós temos uma arca de tesouros que nos acompanha na jornada. De vez em quando preciso ouvir uma suave melodia, ver uma determinada cena de um filme, reler um trecho marcante de um livro ou apreciar um quadro que fala comigo.
O poeta Tennyson dizia que nem o mundo natural e nem a religião tinham a palavra final sobre a vida e sobre Deus – devemos escutar ambos a fim de compreender: um poeta viajando pela mudança das estações ou o verso de um hino apontam para o alvo maior.
Não consigo compreender as pessoas que não se encantam com a natureza, os livros, as músicas, os filmes e as pinturas. Encontro beleza e conforto na arte e na natureza, e direção na Bíblia. E assim prossigo a minha dança, exultante, balançando o meu corpo rechonchudo ao som de “Eternamente Jovem”, enquanto meu pé direito diz “Aleluia” e o meu pé esquerdo “Amém”.

(Trecho extraído do livro "Relíquias de Uma Terra Estranha" de Samuel Rezende)

sexta-feira, janeiro 14, 2011

A Abertura

Azar Nafisi é uma escritora iraniana, que foi professora de língua inglesa na Universidade de Teerã e escreveu o Best-seller “Lendo Lolita em Teerã”, O livro conta a história de sete mulheres, estudantes de literatura que se reúnem escondidas para ler livros proibidos: literatura clássica. Na introdução do livro, Nafisi escreve: “O que estamos procurando na literatura de ficção não é a realidade, mas uma revelação da verdade”.
            Para mim a frase de Nafisi se estende a todas as manifestações artísticas. Procuro a abertura, a fresta no muro que possibilite visualizar a luz do sagrado naquilo que a igreja considera profano. ©

A Lenda do Pianista do Mar

Título Original: La leggenda del pianista sull’oceano
Direção: Giuseppe Tornatore
Gênero: Drama/Musical
Tempo de Duração: 126 minutos
Ano de Lançamento: 1998
Sinopse: Um garoto nasce em pleno alto-mar, ganhando o nome do ano em que nasceu: 1900. A criança cresce num mundo encantado de fortes ventos tempestuosos e cobertas balançando, conhecendo toda a existência disponível a seu toque nos confins do transatlântico em que nasceu. Já crescido, seu talento natural no piano chama a atenção da lenda do jazz Jelly Roll Morton, que sobe a bordo para desafiar 1900 para um duelo. Indiferente com sua súbita notoriedade, 1900 mantém uma fixação pelo mar, sendo sempre seduzido pelos sons do oceano.

O Bode Expiatório (René Girard)



sexta-feira, janeiro 07, 2011

Portador

             Nós, freqüentemente, lamentamos o fato de que não compreendemos Deus. Não entendemos porque não responde uma oração. Falamos sobre o seu movimento no mundo, mas não concordamos com a forma que conduz a nossa história.
As coisas acontecem, aparentemente sem nenhuma razão, e o cérebro tenta fazer a ligação entre o acontecimento e Deus, mesmo que a situação pareça cruel. “Por quê? Por quê?”, nós gritamos. “Mostre-nos a sua glória”, clamamos como Moisés. E Deus desliza na névoa, deixando traços e indícios insuficientes para destruir as dúvidas.
            O mundo evangélico é dividido entre sagrado e profano, religioso e secular. Isso leva a dicotomia sobre a realidade. Ciências versus fé, estado versus igreja, entretenimento cristão versus entretenimento secular. Eu não consigo ver o mundo dessa maneira. Se o mundo pertence a Deus (Sl. 24:1), e se Deus é onipresente, como pode haver tempo, lugar ou maneira de pensar que esteja ausente da sua presença? Este mundo é uma mistura inextricavelmente interligada do bem com o mal. Às vezes o profano não é antítese do sagrado, mas portador do mesmo. ©

A Fraternidade é Vermelha

Título original: Trois couleurs: Rouge / Three Colors: Red
Direção: Krzysztof Kieslowski
Gênero: Drama
Tempo de duração: 100 minutos
Ano de lançamento: 1994
Sinopse: Fraternidade é Vermelha é a conclusão da monumental Trilogia das Cores, do mestre polonês Krzysztof Kieslowski; que tem como tema as cores e os lemas nacionais da França: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Valentine é uma jovem modelo que vive em Genebra. Certo dia, ela atropela uma cachorrinha e, preocupada, sai em busca de seu dono. Assim, conhece o homem que mudará a sua vida: um juiz aposentado que passa os dias espionando as conversas telefônicas de seus vizinhos. É o início de uma história de redenção, compaixão e perdão sobre a comunicação entre os homens.

O Amor nos Tempos do Cólera (Gabriel Garcia Márquez)


domingo, dezembro 05, 2010

Deus: O Visitante Inesperado

Quando falamos em filmes de Natal, a maioria das pessoas pensa em Charlie Brown, Frank Capra ou algo semelhante. Mas a época não é sobre luzes cintilantes, neve, reuniões de família e presentes. É sobre a tensão da espera, a expectativa de dias melhores, a renovação de todas as coisas, a reconciliação – pois Deus se fez homem abrindo um novo caminho.
Este ano me dediquei a escrever o livro “Um Grito de Ausência” e, conforme o prefácio, “Tento costurar o natural e o sobrenatural, corrigindo um pouco da distorção que a Igreja acabou provocando, entregando à natureza as mãos dos geólogos, biólogos e físicos e a arte as mãos dos críticos. Por que nós, cristãos, ainda insistimos em dividir a cultura em sagrada e profana? Como construir uma ponte entre estes dois mundos?”
Brevemente postarei um trecho do livro. Por enquanto, indico alguns filmes que capturam um pouco do “espírito natalino”. Eles não são filmes cristãos ou filmes de natal. Mas Deus costuma entrar em ambientes inesperados.

Vermelho Como o Céu: É inspirado na vida de Mirco Mencacci, famoso editor de som. Aos oito anos de idade, um acidente com uma espingarda faz com que perca a visão. Ele é mandado para uma instituição especializada. Amizade, imaginação e o dom especial contagiam as outras crianças, e a criatividade quebra as barreiras de um mundo escuro e fechado. Enquanto a escola tenta impedir a concretização dos sonhos, Mirco e seus amigos desenvolvem o talento que Deus lhes deu.

Cortina de fumaça: Paul é um escritor que perdeu a esposa, e desde então não é mais o mesmo. Auggie é o dono da tabacaria, amigo de Paul. Todas as manhãs, a mesma hora, Auggie tira uma foto que enquadra a rua e a sua loja. Um dia, Auggie mostra a Paul o álbum com as inúmeras fotos. Paul folheia aquelas páginas sem deter-se para analisar as imagens, afinal, todas podem ser resumidas em uma. Auggie pede que ele olhe com mais atenção, pois mesmo sendo fotos do mesmo lugar, elas são diferentes: a mudança de iluminação, as estações do ano, às vezes as mesmas pessoas aparecem, às vezes elas desaparecem. Então, em uma das fotos, Paul descobre que sua esposa foi fotografada.
Muitas vezes caminhamos assim. Atenção focada em apenas um plano. E os detalhes que alteram e mudam o quadro são, simplesmente, ignorados. O filme também trabalha com a reconciliação.

O pequeno italiano: Vanya é um garoto de seis anos que mora em um orfanato russo. Após a visita de um casal de italianos que resolve adotá-lo, ele ganha dos demais órfãos o apelido de o pequeno italiano. Ao ver que a mãe de um ex-órfão, que fora adotado, apareceu no orfanato querendo o seu filho de volta, o menino acredita que isso também pode acontecer com ele. Vanya resolve procurar a mãe. Sendo perseguido por uns, ajudado por outros, o persistente Vanya prossegue em sua jornada.
O Pequeno Italiano é a odisséia de um garoto em busca de dias melhores ao lado de sua mãe. Uma encantadora jornada de esperança e persistência, temperada com o estilo Dickens.

O solista: Nathaniel Ayers (Jamie Foxx), um morador de rua, é um músico dotado com um raro talento. Steve Lopez (Robert Downey Jr.) é o colunista de um grande jornal que, andando pela cidade, encontra Ayers vestido em trapos e tocando Beethoven em um violino de duas cordas. Lopez quer saber por que este homem talentoso tornou-se uma pessoa de rua, e fica perturbado com a esquizofrenia do músico.
Ayers era uma criança prodígio, que ganhou o direito de entrar na prestigiada universidade Julliard. Mas ele começou a ouvir vozes e vivenciar crises de medo paralisante e claustrofobia. Sozinho e esquizofrênico ele vive nas ruas. Ele explica que ao ar livre, sente a presença de Deus. Ayers ama Beethoven, e torna real a frase de Shakespeare: “A música acalma o coração selvagem”, até mesmo de uma pessoa mentalmente doente.
O que começa como um simples artigo de jornal evolui para uma amizade. A vida de Lopez também é uma série de fracassos e decepções. Ele é um marido fracassado e pai ausente, um desencantado colunista. No final, quem mais mudou foi Lopez.

Paris, Texas: Paris, Texas é um road movie que começa no deserto desolador e escaldante do Texas, depois vira intenso drama familiar que finda no reencontro com o passado. É um retrato impressionante de um homem que precisa refazer a sua história.
Travis (Harry Dean Stanton) é um homem angustiado, despido da memória e sem um objetivo na vida, perambulando por um cenário interior e exterior, desolador. Ele caminha no deserto de Mojave, trajando um terno surrado e um boné de beisebol vermelho empoeirado, a pele do sol castigada pelo sol do deserto, a barba desgrenhada e os olhos injetados de um peregrino completam a sua figura. Travis é um solitário fugindo do passado. Seu percurso silencioso varre a imensidão do deserto.
Travis tentou fugir do passado caminhando rumo a um território desconhecido. Agora é preciso encarar a dor do abandono, superar a perda da mente atormentada pela dor da culpa, enfrentar o passado.
Do terrível naufrágio que invadiu a sua vida, Travis conseguiu salvar uma fotografia de Jane e seu filho. É a sua Ítaca. A ilha da beleza perdida. É preciso coragem para voltar. É preciso determinação para procurar corrigir o erro. É preciso humildade para declarar a sua parcela de culpa. É preciso que haja esperança para enfrentar a sombra e a luz; a mentira e a verdade; a ira e o amor.
A esplendorosa, melancólica e delicada música de Ry Cooder, o blues tocado só com cordas se encaixa perfeitamente na crueza do deserto.

Feliz Natal e até breve.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Um Feliz Ano Novo!

Por que os salmos são os livros mais lidos da Bíblia? Creio que uma das pistas é que eles contêm toda a experiência humana, do desespero à alegria, da gratidão à raiva, da celebração a beleza da natureza a perguntas sem respostas sobre a violência. As pessoas gostam de saber que há três mil anos alguém estava sentindo a mesma coisa e orando. A vulnerabilidade é exposta e permite afastar a cortina e vislumbrar que Deus está ali.
Curiosamente, os salmos me levam a aturar a igreja, esse amontoado de cantores ruins que fazem um ruído maior do que a soma de suas vozes débeis.
Para cada alma que exclama: “Fala Senhor, porque o teu servo ouve”, há dez que dizem: “Ouvi, Senhor, pois fala o teu servo”.
Somos levados, passo a passo, e diariamente, a técnicas de sucesso, e assim esperamos que se pudermos ligar os fios certos, os nossos desejos serão atendidos. A igreja absorveu o barulho consumista e materialista do século XXI.
Orar é deixar Jesus entrar em nosso coração. Jesus vem até nós, Ele bate, e nós devemos abrir a porta dos nossos corações (Ap. 3:20). Não é a nossa oração que move o Senhor. É Jesus que nos move a orar.
E mesmo quando perguntamos, “Será que Deus vai me ouvir? A minha fé é tão pequena”, podemos repousar no fato de que Ele ouve. Se temos fé suficiente para orar, temos fé suficiente para sermos ouvidos. A essência da fé é abrir a porta. Esta é a prova de que a fé ainda está viva.
O problema não é se Deus me ouve. Será que eu ouço Deus? Quando eu oro, exponho a minha nudez? Costumo revelar os segredos que tento esconder de mim mesmo ou temo desagradar-lhe expondo a lama na qual vivo me espojando?
A oração é uma ferramenta para chamar a atenção de Deus ou uma reação à sua presença?
Se a oração envolve a presença de Deus, ela implica em que algo inesperado e não planejado pode acontecer. A presença de Deus pode me surpreender em qualquer esquina, e eu só posso esperar, mantendo a minha atenção focada. Eu não o posso controlar, Deus se aproxima como a luz do sol que vem beijar a terra, e eu não posso continuar crendo que a luz da minha frágil lanterna possa revelá-lo.
Confesso que raramente sinto a presença de Deus nos santuários ou em ambientes cuidadosamente planejados. A maior parte do tempo ele me pega desprevenido, no meio dos meus dias comuns. “Tu me farás ver os caminhos da vida; na tua presença há plenitude de alegria; na tua destra, delícias perpetuamente” (Sl. 16:11). Mesmo quando mancho o silêncio com o barulho do mundo.
Malcolm Muggeridge disse que: “Um dos sistemas mais eficazes de defesa contra as incursões de Deus tem sido a religião organizada. As várias igrejas têm fornecido um refúgio para os fugitivos de Deus, a Sua voz se afoga no canto, o Seu cheiro se perde no incenso, o Seu propósito é obscurecido e confundido nos credos, dogmas, dissertações e outros pronunciamentos sacerdotais”.
Escrevo estas linhas após visitar uma igreja evangélica. O grupo de louvor abriu caminho através da primeira canção. As pessoas, bem vestidas, exalavam o odor da limpeza, as vibrantes aleluias pareciam espirituais. Deixei os meus olhos passearem pelo templo, e desviei os meus ouvidos do cântico para os sussurros. A mulher ao meu lado mostrava um papel para o marido. Um casal atrás de mim recriminava a atitude do filho. Poucos pareciam dispostos a focalizar o motivo do louvor. As aleluias soavam como um velho disco de vinil furado, repetindo mecanicamente a mesma frase.
Muggeridge parece ter razão. O melhor lugar para se esconder de Deus pode ser uma igreja. “Vocês fizeram da casa de meu Pai um lugar de comércio e reunião social. As suas roupas estão limpas, mas o coração também está? Você presta atenção em coisas sem importância e se esquece das coisas duradouras. Vocês falam as palavras certas, mas os seus corações estão longe de mim”.
Tenho enorme dificuldade com igrejas grandes. Sinto-me atraído para as pequenas igrejas. Entre poucas pessoas é difícil se esconder.
Mesmo assim, já vivi momentos inesquecíveis dentro de igrejas grandes e médias. Certa vez, de repente, eu fiquei fascinado pela palavra “Jesus” que estava na tela do retroprojetor. Jesus. Como é estranho ver esta enorme coleção de pessoas, de raças e classes sociais diferentes, apaixonadamente cantando sobre um rapaz judeu chamado “Jesus”.
O caos do meu cérebro deu lugar a uma espécie estranha de epifania. Por um breve momento eu vislumbrei os fios que conectam a minha vida, o mundo, o tempo e a cruz. Fragmentos de imagens ricochetearam pelo meu cérebro. Como uma pintura de Kandinsky, uma tapeçaria desarrumada, com linhas e cores que, inexplicavelmente, faz sentido. Uma comunhão misteriosa que transcende rótulos, categorias e racionalidade.
Apesar do abismo, como diria Emily Dickinson, da solidão, dos momentos de isolamento e desespero, e da desafinação vocal, há o sentimento comum e a memória universal. Então acrescento a lista inicial, o calafrio a percorrer meu corpo, as lágrimas a brotar nos olhos e a estranha sensação de invadir um lugar sagrado. Deus redime a minha insignificância.

(Trecho do livro "Relíquias de uma terra estranha" de Samuel Rezende)

sexta-feira, novembro 28, 2008

Fragmentos


Tenho uma fé lúcida. Aceito a dúvida como um sinal da fé. Se a fé fosse o sinal de uma certeza, seria fácil o caminho da eternidade. A fé é um ato radical que não se confina no quotidiano. É fácil se entregar à rotina ou aos rituais. O difícil é cultivar esse abandono ao poder do Espírito.
A escritora Flannery O’Connor disse que “Chega-se a uma razoável certeza a respeito do caminho a trilhar, mas é um percurso no escuro. Não conte que a fé tornará as coisas mais claras. Trata-se de confiança, não de certeza”.
O pensamento é um poderoso e precioso poder, mas é um horizonte não uma fundação. Não possui solidez para alicerçar a alma, mas alarga a visão. Amplia o nosso alcance mais do que o fixa. Amplifica o problema, sem resolvê-lo. Fé não é um asilo para os que tem preguiça de pensar.
Dostoiévski dizia que “Não é como criança que creio em Jesus Cristo e o confesso. Meus hosanas nasceram de uma fornalha de dúvidas”.
Frederick Buechner dizia que as “dúvidas são as formigas nas calças da fé. Mantêm-na acordadas e em movimento”.
Como disse o poeta Rainer Maria Rilke, é melhor viver com uma pergunta embaraçosa do que negar qualquer uma das realidades dentro dela.
Ao contrário de outros livros proféticos, Habacuque é mais uma oração do que uma profecia. O preocupado profeta ousa dialogar com Deus, enfrentando-o com perguntas que parecem desafiar o amor de Deus. Costurando perguntas difíceis e respostas divinas, o método foi denominado “rabínico” ou “socrático”, e foi usado por Jesus com muita eficiência (Mt. 24:42). A fé de Habacuque é tão profunda que ele pode expressar honestamente as suas dúvidas e ficar satisfeito quando o Senhor responde com novos apelos à fé.
Mesmo através da lente grossa do racionalismo e do materialismo, podemos exercitar o olhar da fé. O apóstolo Paulo alertou que o olhar de fé de Abraão foi considerado como justiça. O olhar o justificou.
O discurso de Deus para aquela família estéril é um convite ao abandono. Sair do presumível mundo das normas e segurança. A ordem é concisa e peremptória. Ela não se baseia na lei ou disciplina, mas na promessa. Partir é abandonar a esterilidade. A fé repousa na contradição: ficar em segurança é permanecer estéril, correr o risco é ter esperança. A fé implica em uma jornada rumo ao desconhecido. É preciso dar o primeiro passo, sem saber para onde estavam indo, quando chegariam lá ou como saber que já chegaram. A fé não é a posse do mapa, mas a viagem.
A jornada teve várias etapas. Eu gosto de pensar nisso. A fé como verbo ao invés de substantivo, um processo em vez de uma posse. Eu tenho a fé que meu amigo é meu amigo. É possível o engano. É possível que ele tenha outra intenção além da simples amizade. Mas as nossas conversas, os conselhos, o silêncio sem embaraço, me leva a crer na sua amizade. Eu não posso prová-la, mas a experimento.
Fé inclui dúvida. Paul Tillich dizia que a dúvida não é o oposto da fé, e sim um elemento.
Fé é caminhar, um passo de cada vez. Às vezes parece uma rodovia devidamente sinalizada, em outras, é uma trilha cheia de folhas, galhos e armadilhas. A fé é uma resposta a um convite.
Como filhos da modernidade, esse parece um conceito curioso. Estamos habituados a pensar em nossas próprias realizações, as nossas próprias agendas, os nossos próprios objetivos. A história de fé de Abraão é um lembrete útil de que não somos arquitetos da nossa própria vida ou do mundo. Nós somos herdeiros de uma promessa, e não pode haver promessa sem que haja um autor. A promessa de segurança, bem-estar, prosperidade e proeminência são dons a ser colhidos durante e ao fim da viagem. É o que torna a viagem sagrada e não apenas um vadiar através dos dias.
Crença centra-se em declarações. Fé implica em ação.
Thomas Merton falou da “possibilidade de um diálogo ininterrupto com Deus”. Um diálogo de amor e de escolha. Um diálogo de confiança e esperança. Um diálogo que permita soltar-se como um falcão nas correntes de ar.
O antônimo de fé não é dúvida, mas medo.
(Trecho extraído do livro "A sobrevivência da fé" de Samuel Rezende)

terça-feira, janeiro 08, 2008

UM 2008 MAIS DO QUE SIGNIFICANTE



Para W. H. Auden, a nossa ordinária existência é chacoalhada na época de Natal: “a festa de Natal transforma a memória”. O interessante no seu poema não é que ele fala dos eventos da natividade mas por prolongar o impacto da encarnação em um mundanismo diário.
Para Auden o Natal é mais do que o ápice de uma comemoração, é um lembrete anual de que Deus agiu e está agindo “para redimir a insignificância”, a lama monótona de nossas rotinas.
Os críticos que bajulavam Auden, criticaram o seu retorno à igreja. Diziam que era um ato de covardia intelectual e desprezaram-no. Os intelectuais liberais que o aplaudiram quando dissecou a passionalidade dos traumas sociais dos anos 30, agora bufavam com seu novo estilo divertido, frívolo e irrelevante.
Um artigo escarnecedor perguntava: “O que terá acontecido com Wystan?”
O certo é que este grande poeta não passou em branco. Neste poema ele descreve o fervor religioso do feriado e a depressão pós-natal:
As ruas são muito mais estreitas do que nós recordamos;
Nós tínhamo-nos esquecido
O escritório era tão comprimido como este.
Àqueles que viram
A criança, de qualquer modo não ofuscante, incredulamente,
Tempo que é, em um sentido, o tempo tentando de tudo.
Para Auden, a encarnação infunde significado a existência histórica. O hoje foi redimido, e a tarefa dos cristãos é participar deste trabalho lento:
Entrementes
Há contas a ser pagas, máquinas para serem consertadas,
Verbos irregulares a aprender, o Tempo redime
A insignificância.
Estava olhando o quadro “A queda de Ícaro” de Pieter Brueghel, a representação mais inesperada deste mito. O mar, a natureza e a cidade dominam a cena. Destaca-se um lavrador indiferente, um pastor a olhar para o céu, mas para o lado errado; atrás dele, na água, mas quase sem se ver, o Ícaro caído. O quadro parece querer ignorar a presença de Ícaro: é um ponto no canto inferior direito (como uma assinatura), caído na água, de pernas para o ar. A insignificância de Ícaro contém um sentido filosófico-moral. As pessoas nem notaram o acontecimento.
Inúmeras estimativas foram feitas, tentando datar o universo. O cristão afirma que em um momento especial, antes do tempo, Deus num rasgo de criatividade, chamou a existência – águas, terra, plantas, animais e seres humanos – não em dias comuns. A Bíblia é pródiga em declarações de que o tempo de Deus não é o nosso tempo. Mil anos não é mais do que um piscar de olhos a luz de Deus.
Quando Deus criou o universo, foi como se uma flor minúscula desabrochasse em grandes nuvens de gás de hidrogênio e galáxias rodopiando. Deus criou os sistemas solares e planetas, e este planeta no qual caminho enquanto a terra faz a sua graciosa dança em torno do sol.
E Deus examinou a sua intrincada criação e considerou-a boa. Cada partícula subatômica da criação foi examinada pelo Criador. De uma partícula destinada a viver alguns segundos a uma galáxia com uma extensão de vida de bilhões de anos.
Houve um momento quando todas as estrelas prenderam a respiração, as galáxias pausaram a sua dança por uma fração de segundos, e a Palavra que as tinha chamado à existência, foi silenciosamente aninhar-se no ventre de uma jovem. E o universo respirou novamente.
Um poder além da imaginação entregou-se a impotência de uma criança em gestação, informe, nadando no grande oceano do líquido amniótico, cego, surdo e mudo. No ritmo lento do crescimento de um embrião humano este poder aguardou nove meses para nascer.
Jesus Cristo, a segunda pessoa da trindade, criador do universo, visitava este pequeno planeta, limitado ao tempo, espaço e ao universo humano.
O Verbo-Criança, a palavra divina fez-se carne. Devemos ser gratos por este presente sagrado. Para Auden a doutrina da encarnação significa que quando a palavra fez estadia entre nós, os pontos fracos e os limites do mundo adquiriram uma cor inesperada. No coração, o cristianismo é uma vigorosa religião materialista, porque afirma que o sagrado entrou no mundano.
A palavra divina introduziu-se furtivamente no mundo, como um bebê em Belém. Depois desse acontecimento surpreendente, devemos permanecer abertos à possibilidades, surpresas e maravilhas.
A principal crise do nosso tempo não é energética ou ecológica, mas uma crise espiritual. A aquiescência da cultura ocidental para o materialismo resultou em uma profunda negligência da vida transcendente que ironiza a adoração, a encarnação e a tentativa de manter um padrão moral.
Não há como ressacralizar o cosmos. Mas podemos procurar pistas nas experiências comuns da vida. Há sinais da transcendência em nosso desejo de ordem, no jogo do amor, no uso do humor e em nossas experiências de esperança e desespero.
O sofrimento pode ser uma ferramenta para avançar a um nível mais profundo de fé, consciência e introspecção. A vida contemplativa pode começar em uma experiência de dor. Para Evelyn Underhill, o primeiro estágio é a conversão. O teólogo Paul Tilich dizia que estamos estagnados até que em um esforço crítico confrontamos o vazio e o silêncio. Somente abraçando a própria inadequação experimentamos o crescimento e uma nova vida.
Gosto de Kierkegaard. Conheci os seus textos no período em que li J. D. Salinger e seu cultuado personagem rebelde Holden Caufield. As arremetidas espirituais e intelectuais de Kierkegaard carregam o cheiro da rebelião da juventude, um noivado com a recusa radical de encarar o mundo como ele é.
O salto da fé de Kierkegaard introduz a transcendência do amor divino. Ele não traz apenas a lei moral para a terra, mas, paradoxalmente, introduz uma demanda para amar além da possibilidade humana. Nós somos incapazes de satisfazer a exigência da lei moral. Mas somos incapazes de viver sem ela. Se optarmos pela esfera ética da existência, vivendo como um asceta, experimentamos o sabor do desespero.
No cristianismo o indivíduo atinge a intensa e profunda reflexão: “ser cristão é uma determinação dialética, pois o Indivíduo se torna cristão pela conversão. A fé é enraizada na infinita dialética da incerteza”.
O mundo moderno tenta isolar a dor, anestesiar o sentimento e finda provocando mais sofrimento.
A vida é cheia de um sol radiante, de tempestades incríveis e o que vemos pela rua é gente correndo, gente com pressa porque é sempre ali na frente que está a nossa solução. O que precisamos é morar, comer e consumir. E para isso temos que estudar e trabalhar. Uma equação bastante simples e lógica. Um bebê não exporia melhor. Temos simplesmente que resolver o rumo que desejamos. Desejamos estar nesse mercado competitivo? Desejamos estar de gravata e com o cartão de crédito sempre na iminência de estourar?
Vejamos uma outra pessoa que vá na contramão de tudo, que resolva, por exemplo, recolher-se a um mosteiro e dedicar sua vida a Deus. Não me parece que duvidemos da sanidade de um frade ou de um pastor. Parece que está tudo certo, tecnicamente com ele, esse homem igual aos outros apenas escolheu um caminho que não é o da maioria, mas é perfeitamente aceito.
William James, norte-americano que foi um dos grandes fundadores da moderna psicologia científica, afirmava, e cito de memória, que “não é psicologicamente possível ao homem viver sem acreditar na sua própria imortalidade”.
“No fundo, o que se oculta sob toda esta problemática é o problema da existência da alma: nós temos ou não temos uma alma? Mas não é apenas o problema da existência da alma: é também o problema das relações entre a consciência, a mente e o cérebro/corpo”.
“Desenvolvendo uma comparação sugerida por Rupert Sheldrake... ninguém se lembraria de supor que a rádio e os seus mecanismos internos são a fonte das vozes e das músicas que dele saem; ninguém se lembraria de supor que a televisão e os seus mecanismos internos são a fonte das imagens e dos filmes que dela saem; mas é curioso verificar como tão facilmente cremos que o cérebro e os seus mecanismos internos são a fonte da consciência! Mas a verdade é que a rádio, a televisão e o cérebro são apenas aparelhos de recepção e de emissão: de sons, de imagens e sons, e da consciência”.
Muitas vezes nos fechamos em nosso viver hedonista, circunscritos que aos nossos desejos, à vida que levamos, e que para nós, por ser tudo o que temos, em parte limita o mais que poderíamos ser, ou mesmo ter, no que diz respeito às experiências que viríamos a acumular. Quando nada interfere, também pouca coisa muda. Quando só há ruídos, o silêncio não é um dado de realidade, porque já está tão internalizado em nós, que apenas o barulho aparenta ter força de verdade.
Por que os salmos são os livros mais lidos da Bíblia? Creio que uma das pistas é que eles contêm toda a experiência humana, do desespero à alegria, da gratidão à raiva, da celebração a beleza da natureza a perguntas sem respostas sobre a violência. As pessoas gostam de saber que há três mil anos alguém estava sentindo a mesma coisa e orando. A vulnerabilidade é exposta e permite afastar a cortina e vislumbrar que Deus está ali.
Curiosamente, os salmos me levam a aturar a igreja, esse amontoado de cantores ruins que fazem um ruído maior do que a soma de suas vozes débeis. Em um culto de adoração eu posso sentir – a despeito desse aspecto – a presença de Deus.
Apesar do abismo, como diria Emily Dickinson, da solidão, dos momentos de isolamento e desespero, e da desafinação vocal, há o sentimento comum e a memória universal. Então acrescento a lista inicial, o calafrio a percorrer meu corpo, as lágrimas a brotar nos olhos e a estranha sensação de invadir um lugar sagrado.

(Trecho do livro “Relíquias de uma terra estranha” de Samuel Rezende)

sábado, março 03, 2007

Seguindo as pegadas

G. M. Hopkins viveu a tediosa vida de jesuíta envolto em dúvidas e atormentado por uma doença crônica. Beethoven compôs uma de suas maiores obras após sua surdez. Walter Scott escreveu suas famosas obras após haver sido chutado por um cavalo e estar confinado em sua casa durante vários meses. Mark Twain foi companheiro da morte. Amigos de infância, a irmã, dois irmãos, um filho e duas filhas morreram. Chesterton caminhou à beira do abismo, quando tinha 18 anos, experimentando trauma psicológico e espiritual, vítima da insanidade e pessimismo de sua época. Shakespeare presenciou a morte de sua filha. Victor Hugo presenciou a morte de duas filhas e a loucura de uma outra. Gauguin pintou grandes obras convivendo com a sífilis. Dostoiévski viveu à beira do desespero por causa de dívidas e da epilepsia. Isak Dinesen escreveu belos contos enquanto sofria com as dores de estômago e a fraqueza das pernas, conseqüência da sífilis contraída do seu marido, Barão Blixen. Eles caminharam na estrada do sofrimento.
Não devemos nos curvar ao sofrimento, mas resistir para contar sobre ele. Estas pessoas o experimentaram, e redescobriram entre as ruínas da dor, a esperança. Eles, como eu, defrontaram-se com a compaixão de Cristo – Aquele que sofre conosco. Apenas Mark Twain sucumbiu. A morte da terceira criança foi mais que a sua fé poderia agüentar.
A minha vida é pacata, despida de aventuras. Muitas pessoas viajam e voltam contando as histórias dos lugares que viram e das pessoas que conheceram. As minhas aventuras resumem-se as poucas viagens que fiz, a leitura de biografias e livros e a paixão por filmes.
Caminhando nestas estradas, cheguei a conclusão que há duas formas de relacionamento com a dor. Há pessoas que enterram as suas dores. O efeito é destrutivo. As pessoas que conheço e que se portam dessa forma costumam perder a compaixão. Um exemplo é o caráter trágico da Senhorita Havisham, personagem de Charles Dickens em “Grandes Esperanças”. Abandonada no dia do seu casamento, gasta os seus dias vagando entre as lembranças: a casa, o bolo, o vestido de casamento, as flores murchas, o relógio parado; prisioneira do passado. Dickens conclui: “Também sabia perfeitamente que ao rejeitar a luz do sol tinha rejeitado muito mais do que a luz; que no refúgio em que se havia enclausurado, se havia privado de mil influências naturais e salutares; que seu espírito sempre mantido na solidão veio a sofrer com isso, como sempre acontece aos espíritos que alteram a ordem estabelecida pelo Criador. No entanto, vendo como estava sendo castigada, vendo a sua infelicidade, a sua incapacidade profunda de viver no mundo em que se achava, vendo-a presa da vaidade do sofrimento, vaidade que se tornara nela uma monomania... e outras tantas vaidades monstruosas que foram a maldição de muitos neste mundo, vendo-a tão desgraçada, poderia eu olhá-la sem comiseração?”. A segunda forma é a que procuro vivenciar. Conheço a espada da dor, e como sobrevivente, não procuro esquecê-la, escondê-la ou fingir que nada aconteceu.
Jamais procurei romper os vínculos com o sofrimento. Talvez seja o Samuel daqueles tempos o que mais esteve vivo. É no sofrimento que nos aproximamos da essência que nos une a outros seres humanos. É no momento da dor que a porta abre-se e compreendemos a dor das outras pessoas. O sofrimento nos torna cientes de nossa pequenez, esmaga a auto suficiência, e nos torna mais sensível ao poder de Deus.
A dor pode transformar-se em tesouro quando nós a utilizamos como uma estrada de compaixão, que permite levar ânimo e auxílio a outras pessoas. Compartilhando as experiências, alegrias e tristezas, carregando a cruz um do outro. Assim estaremos imitando Jesus, pois da dor inescrutável da cruz surgiu a esperança da humanidade.
Escrevendo sobre a dor, eu penso na áspera parábola dos talentos. Jesus contou a estória do homem que antes de viajar, deu a três empregados, uma certa quantia: a um deu cinco, a outro dois e a outro um. Quando retornou, “aproximando-se o que recebera cinco talentos, entregou outros cinco, dizendo: Senhor, confiaste-me cinco talentos; eis aqui outros cinco talentos que ganhei”. O senhor o elogia, chamando-o de “bom e fiel” e convida-o a participar da sua alegria. O homem que recebera dois talentos fez outros dois e recebe o mesmo elogio. Mas, o homem que recebeu um talento desculpa-se dizendo: “eu estava receoso e escondi na terra teu talento; aqui tens o que é teu”. O senhor o repreende: “Servo mau e negligente... tirai-lhe, pois, o talento e dai-o ao que tem dez... E o servo inútil, lançai-o para fora, nas trevas” (Mt. 25:14-30).
O homem de um talento representa alguém que enterrou a dor, ocultando-a de tal forma que ela não produziu frutos para a vida. As trevas para as quais foi arremessado não significam, para mim, uma punição, mas uma conseqüência inevitável da decisão de enterrar a sua vida. Se você enterrar a sua vida, você não a abandona. Você está sozinho, na obscuridade.
Quando tentamos ocultar a dor, impedimos o crescimento. Diminuímos. Tornamo-nos pigmeus da fé.
Há os que negociaram com seus talentos. Negociaram com suas vidas. Somos comerciantes da vida: eu necessito de você; você necessita de mim. Essa é o convite do senhor, a participação na alegria de mais relacionamentos.
A ausência de Deus é a demonstração deste amor, esta devoção ao que os olhos não podem ver. Conseguir oferecer este amor, focalizando toda a sua atenção e superar a distância, deve ser o nosso maior desejo.

(Trecho do livro "Náufragos da fé" de Samuel Rezende)

segunda-feira, agosto 29, 2005

O sofrimento: Pistas no livro de Jó

A melhor forma de compreendermos o livro de Jó é analisando como um filme, do qual vimos o trailer e conhecemos o enredo. Mas o ator principal não sabe o que está acontecendo, por que e onde o conduzirá tantas mazelas. O comediante Jim Carrey fez um filme – O show de Truman – no qual o personagem que representa, é acompanhado ao vivo pelo país inteiro desde o momento de seu nascimento. Ele vive em uma cidade fictícia, com moradores, que na verdade, são atores, e tudo faz parte de um grande cenário, até a praia com seu pôr-do-sol deslumbrante é artificial. Mas ele não sabe e leva sua vida comum acompanhado por câmeras ocultas, até mesmo no banheiro. Enquanto o país inteiro cruza os dedos e vibra com seus bons momentos e chora com as suas decepções, torcendo para que seus passos sejam conduzidos a um final feliz. O livro de Jó tem um aspecto semelhante.
Em Jó, vemos satanás satirizando a lealdade, insinuando que Deus é indigno de amor, e, segundo satã, Deus suborna as pessoas. Satanás acusou Deus, que Jó somente o seguia porque era abençoado. As pessoas amam a Deus, disse certa vez um sacerdote, “assim como o camponês ama sua vaca, pela manteiga e pelo queijo que ela fornece”. Se as suspeitas de Satanás fossem confirmadas, ele encontraria a justificação para sua própria queda.
Deus aposta no poder do amor. Por natureza, o amor é um frágil poder, consiste em cativar o coração do outro e aguardar uma resposta recíproca de amor e fidelidade.
Em Jó, a guerra espiritual não assume os gigantescos contornos que os evangélicos modernos abraçam. Não é uma disputa titânica entre duas forças que se digladiam tentando provar quem é o mais forte. C. S. Lewis costumava dizer que não havia uma guerra espiritual, mas sim uma rebelião interna e o rebelde encontra-se sob controle. É um conflito entre um Deus que ama incondicionalmente e um acusador que utiliza os recursos da violência para provar a impossibilidade da recíproca desse amor.
Satanás utiliza-se da violência, destruição, sofrimento e dor, fontes nas quais os homens embebedaram-se durante os séculos; basta olhar nos arsenais de armas destruidoras: guerra, assassinato, terrorismo, tortura.
A questão foi levantada, como Jó se comportaria se a miséria adentrasse sua vida? Deus aceitou o desafio e testou a teoria de satanás, entregando o poder de decisão às reações de Jó. As comportas da calamidade foram abertas.
A fé é um produto do ambiente, da cultura, e se evapora frente às adversidades? É possível crer em Deus quando ele parece nos ignorar e, mais do que isto nos esmagar?
Nesse instante entra em cena os amigos de Jô – abutres humanos. Os “abutres” no geral dão respostas simplistas, às pessoas que sofrem de problemas emocionais; respostas que só servem para lançá-las num abismo profundo de desespero.
Os argumentos dos amigos de Jó são sempre os mesmos. – Jó, Deus está lhe dizendo algo. Deve haver uma razão para seu sofrimento. Ele deve estar zangado com algum pecado seu. Confesse sua falha, e Deus operará poderosamente. A outra opção partiu da esposa de Jó: “amaldiçoa a Deus e morre”.
No tempo de Jesus, os fariseus ensinavam que “Não há morte sem pecado, e não há sofrimento sem iniqüidade”; como os amigos de Jó, eles tinham visões do castigo divino nos desastres naturais, nos defeitos de nascença e nas doenças crônicas. Embriagados desse tradicionalismo, afirmavam que talvez o homem houvesse cometido algum pecado in útero.
Se Jó terminou seu livro como o herói, por que os cristãos utilizam mais as palavras dos amigos de Jó, que foram considerados vilões? O padre de “A peste”, de Camus, portava-se como os amigos de Jó, afirmando que a praga que se alastrava indiscriminadamente era um castigo divino.
Os abutres alegam ter palavras de conhecimento bem ao estilo Elifaz, que utiliza-se de uma “visão misteriosa” proporcionada por um “espírito” que lhe concedeu sua base de argumentação. Estes pseudo-espirituais, bastante semelhante aos modernos, são repreendidos por Deus: “A minha ira se acendeu contra ti (Elifaz), e contra os teus dois amigos, porque não dissestes de mim o que era reto, como o meu servo Jó”.
Jó não cede a dogmas religiosos e como Philip Yancey escreveu, torna-se “o primeiro protestante”. Os mais ortodoxos religiosos admitem que Jó exige uma explicação da parte de Deus de uma forma até então inédita. Jó desafiou os argumentos destilados. O apóstolo Paulo desafiou o Sinédrio. Lutero desafiou a autoridade de uma igreja arrogante.
Jó rejeitava as tolas opiniões. Ele estava consciente que não havia correspondência entre sua situação e a questão de justiça. Beirando o desespero, Jó chegou a visualizar um Deus sádico, que ri “do desespero do inocente” que “cobre o rosto” (Jó 9:23,24) para não presenciar julgamentos injustos ignorando o clamor como se nada estivesse acontecendo.
Para C. S. Lewis: “O homem antigo vinha a Deus (ou até mesmo aos deuses) como o acusado ao juiz. No caso do homem de hoje, os papéis se inverteram. Ele é o juiz; Deus está no banco dos réus. Ele é um juiz bem generoso: se Deus tiver uma boa razão em sua defesa para ser o Deus que permite a guerra, a pobreza e a doença, estará então disposto a ouvi-la. O julgamento talvez até acabe na absolvição de Deus”.
Jó coloca Deus no banco dos réus, irado, satírico, sentindo-se traído, desabafa de forma implacável. Acusa Deus de praticar atos injustos contra um inocente, vagueia próximo à blasfêmia.
“Na sua ira ele me despedaça e me persegue e range os dentes contra mim; o meu adversário aguça os olhos contra mim” (16:9).
“Chamo a ti, ó Deus, mas não me respondes; ponho-me de pé, mas para mim não atentas. Tornas-te cruel para comigo; com a força da tua mão me atacas. Contudo, aguardando eu o bem, me sobreveio o mal; esperando eu a luz, veio a escuridão. A agitação das minhas entranhas não cessa; os dias da aflição me sobrevêm” (30:20,21,26,27).
Quando a morte não vem e Jó sente que as suas orações são gritos sem esperança lançados ao vento, ele pede um mediador, “que ponha a mão sobre nós”. Os seus pedidos (9:33; 16:19-21) mais tarde são atendidos de forma marcante em Jesus, o mediador entre Deus e o homem.
A tribulação de Jó é uma forma dolorosa e crucial de testar a liberdade humana. Enquanto nossos cientistas afirmam que somos apenas e tão somente, uma combinação de DNA, cultura, instinto e leis impessoais, uma pergunta nos acompanha do berço à sepultura: O que fazemos tem algum significado? Desempenhamos algum papel no drama universal? Quem somos, de onde viemos e para onde vamos?
Clamamos por justiça, para que cada pessoa seja recompensada com aquilo que merece. Mas se o mundo fosse constituído de retribuição obrigatória, como a dor que acompanha o ato de colocar a mão no fogo, como seria, então, se houvesse punição a cada pecado cometido? Certo escritor disse que “Se Deus reagisse as coisas erradas lançando raios, nosso planeta piscaria como uma árvore de natal”.
Saberíamos o que Deus espera de nós. Como uma foca de aquário, cuja obediência é recompensada com um suculento peixe. Que mundo maravilhoso seria. Mas há uma falha gritante neste mundo organizado e perfeito. Não é a forma que Deus age, pois não haveria liberdade. A obediência seria automatizada pelos benefícios imediatos que viriam dela. A bondade seria contaminada pelos interesses mesquinhos e egoístas de uma recompensa imediata. Seríamos programados para amar a Deus, e inviabilizaria a escolha deliberada que o livre-arbítrio proporciona mesmo combatendo com atrações incomensuráveis.
Deus exulta com o amor exercido de forma livre. A fidelidade ao Criador deve sobreviver aos bombardeios constantes da falta de orações respondidas.
O livro de Jó exala atualidade pelos seus poros, porque também não conseguimos entender este quebra-cabeça chamado vida. Buscamos respostas em um planeta atormentado por atrocidades diárias, onde crianças são espancadas até a morte, idosos são abandonados nas portas dos asilos por seus familiares, jovens têm sua vida ceifada de forma abrupta no esplendor de sua juventude, crianças morrem de fome enquanto políticos corruptos sugam o dinheiro do povo, onde gasta-se bilhões produzindo armamentos, onde traficantes e chefes do crime organizado lucram com o sangue dos nossos jovens, onde milionários constroem mansões – aqui no Brasil, com duas piscinas, uma delas com água mineral.
O desenho que é formado, com dois mundos, visível e invisível, no qual um mundo afeta o outro, encontra-se por toda a Bíblia. O nascimento de um bebê estremece o universo (Ap. 12), uma oração e sua resposta provocam um duro combate (Dn. 10), o arrependimento de um pecador faz com que anjos dêem pulos eufóricos na arquibancada celestial (Lc. 15), o êxito missionário afeta os planos de satanás e aciona a catapulta que o arremessa como um relâmpago do céu (Lc. 10). Ações comuns do mundo visível transbordam seu efeito sobre o mundo invisível.
Daniel esmurrou o chão, orou e chorou. Abriu mão de um cardápio especial. Afastou-se de vinho e carne, deixou os perfumes de lado, só faltou fazer greve de fome. Vinte e um longos dias arrastaram-se, sem respostas. Até receber uma visita especial. Um anjo com olhos de 1.000 volts e o rosto com o brilho do sol, cruzou em seu caminho, à margem de um rio. Daniel perdeu a respiração, mudou de cor sem necessidade de maquiagem (Dn. 10:8
A companhia inesperada explicou que o atraso não era um problema na condução, ele fora enviado quando a primeira oração adentrou os recintos celestes, mas um ataque violento do “príncipe do reino da Pérsia” o encurralou, sendo necessário a chegada de reforços angélicos comandados por Miguel, que o ajudaram a superar as linhas adversárias.
Jó e Daniel desempenharam papéis decisivos no confronto entre o bem e o mal, embora não tivessem consciência do fato. Para ambos, o clamor a Deus pode ter parecido fútil, e Deus, estaria muito distante, cuidando de uma galáxia bebê. Mas basta uma olhada atrás da cortina, para que a situação seja esclarecida, o palco visível não representa todo o espetáculo da criação.
Muitos cristãos tentam evitar a cena embaraçosa do capítulo 1 de Jó. Mas nenhum livro fala de forma mais eloqüente, que a fé de um único ser humano faz diferença.
Somos as jóias que Deus expõe em sua joalheria celestial, para ser perscrutadas pelos poderes invisíveis. Tendo uma imagem deste tipo em vista, Paulo escreveu que: “nos tornamos espetáculo ao mundo, tantos aos anjos, como aos homens” (I Cor. 4:9). Nós também participamos de uma guerra cósmica, onde milhares de espectadores invisíveis assistem o confronto no ringue chamado terra.
Em meio ao sofrimento o que Deus está querendo dizer? Não adianta nos torturarmos buscando respostas. Ela pode ser que vivemos num mundo de leis fixas. Talvez, Deus esteja falando-nos através e apesar da dor. Talvez esteja acendendo o fogo de nossa consciência para que o busquemos.
É incompreensível desenharmos com nitidez as regras que conduzem as ações de um Deus que vive fora do tempo, e ocasionalmente faz uma incursão dentro do tempo. Sinto-me confuso com a palavra “onisciência”, se Deus sabia que Jó permaneceria fiel, a aposta teve alguma validade? Quando Abrãao recebeu ordem para sacrificar Isaque, Deus já sabia qual seria a sua reação. Para que torturar o pobre Abrãao?
Mas Abrãao não tinha conhecimento da capacidade de obediência que possuía. O conhecimento divino de todas as coisas implicaria que as coisas conhecidas não precisariam existir? Se isto ocorresse exterminaríamos a própria existência.
Talvez a mensagem de Jó e Abrãao, é que não podemos raciocinar de forma simplista quando Deus está em cena. A palavra onisciência estampa a imagem de alguém preso dentro do tempo. Deus não enxerga numa seqüência progressiva, como o alfabeto: A, B, C ... ele não faz “previsões” sobre o que acontecerá, ele nos acompanha fazendo-as, o eterno presente ancorado em suas mãos. Nós, presos no tempo e seus frágeis padrões analíticos, não conseguimos absorver a dimensão que nos é mostrada. Um dia veremos as catástrofes que presenciamos, sob outra ótica.
As discussões teológicas e filosóficas da igreja sobre onisciência, onipotência, onipresença, predestinação etc., demonstram nossas desajeitadas maneiras de compreender aquilo, que para nós, só faz sentido quando adaptado ao nosso campo temporal. Diversos trechos bíblicos fornecem pistas quanto ao ponto de vista “atemporal”. Diz que Cristo foi “conhecido... antes da fundação do mundo”, quando então não havia necessidade de redenção. Diz que a vida eterna “nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos”. O linguajar nos leva a conclusão que parte de um Deus que vive fora do tempo. Que acompanhava o desenrolar de um planeta caído que sequer existia.
Finalmente, em completo desespero, Jó reduz as suas exigências a um só pedido, que mantém até o fim. Ele pede uma explicação do próprio Deus (13:3;31.35). Ele quer uma audiência no tribunal, uma oportunidade para ouvir Deus se defender.
Esse último pedido deixa os amigos de Jó irados. Que direito tem um ser humano insignificante, de pedir contas a Deus? Como é que um homem, “que é uma larva, e o filho do homem, que é um verme” (25.6) ter tanta ousadia?
A resposta veio de forma nada sutil; Deus troveja de forma retumbante: “Já que você não consegue fazer o sol se levantar a cada dia, nem preparar o caminho para que o relâmpago resplandeça, ou como traçar limites para as ondas do mar, e a formação das gotas do orvalho, ou mesmo projetar a força do hipopótamo. Apenas cale-se e ouça”. Deus mencionou o sistema solar, constelações, tempestades, animais selvagens e a insignificância do conhecimento humano.
Frederick Buechner resume bem a fala de Deus: “Deus não explica; explode. Pergunta a Jó quem ele pensa que é. Ele diz que tentar explicar o tipo de coisas que Jó quer saber, seria como tentar explicar Einstein a um insignificante marisco ... Deus não revela seu magnífico projeto. Ele revela a si próprio”. Jó rendeu-se de cara no chão.
Jó argumentou partindo de uma concepção errada, concepção esta que nós também abraçaríamos. Deus corrigiu-a, expandindo sua visão para o universo. Não há cálice açucarado, como é apresentado por muitos cristãos. Na ordem do dia divino, a fé humana é mais importante que o prazer.
O diabo não recebe uma repreensão formal no Livro de Jó. Depois dos discursos em que Jó desafia o Senhor, o diabo simplesmente sai de cena, como o bobo do Rei Lear. Até o vejo esgueirando-se na ponta dos pés e saindo de fininho.
Deus não esclarece Jó a respeito da batalha cósmica em que ele foi inadvertidamente envolvido; porque permitir que Jó enxergasse os bastidores significaria mudar as regras da competição que ainda estava em andamento. Deus não consolou, nem justificou, não ofereceu rápidas explicações nem convidou Jó para olhar o vídeo tape e compreender os bastidores.
Deus responde à pergunta sobre o sofrimento no livro de Jó? Não. Deus não fornece uma análise lógica sobre o assunto. Aliás, Ele nem mesmo leva isto em consideração. O que Deus queria de Jó?
Talvez capacitar Jó a reconhecer a legitimidade e a sensibilidade da limitação humana. Nós nos iludimos com a crença de que a nossa mente finita não somente pode, mas também deve saber tudo a respeito de tudo. A resposta de Deus é: “Você não sabe – você não pode saber; e ainda mais, há um legítimo mistério que gera uma necessária sensação de maravilha”.
Ao colocar no vestibular de Jó, perguntas como: onde estava quando a terra e o mar foram formados? Como controlar as ondas do mar, a tempestade e as estrelas? Mostrando a Jó os fundamentos da terra; a represa invisível que impede o mar de cobrir o planeta; a origem da neve; o ponto enigmático de onde surgiu a luz que iluminou o mundo; as estrelas e galáxias que se estendem no espaço; o amanhecer de um novo dia; as leis de evaporação e condensação; o mistério complexo das profundezas do mar; a criação do relâmpago, trovão e as nuvens; a diversidade do reino animal; a harmonia da terra e de todo o universo – Deus nos conduz a uma outra paisagem.
Entretanto, mesmo enquanto me maravilho diante da ofuscante descrição que Deus faz do mundo natural, uma sensação de perplexidade me acompanha. Essas palavras são relevantes?
Clarice Lispector, esbanjou talento ao escrever este delicioso desabafo a “La Jó”:
“Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
meu pecado de pensar”.
Ele recebe. Ele compreende. E o essencial, Ele permite. Jó é o maior exemplo da liberdade de expressão concedida por Deus a um ser humano.
O livro de Jó demonstra que nós podemos dialogar, reclamar e expor nossos momentos de desespero, tristeza, ira, dúvida, amargura, decepção a Deus, sem medo de sermos fulminados. Deus assimila os golpes como um boxeador preparado. A Bíblia mostra com freqüência os seus grandes heróis em luta com Deus. Preferiam expressar o que pensavam, como Moisés e Jó, ou até mesmo ficar defeituoso como Jacó, do que aceitar passivamente o silêncio de Deus ou o desprezo santo, como resposta. Deus lida com todas reações humanas, exceto a tentativa de mantê-lo longe ou ignorá-lo. Isso nem passou pela cabeça de Jó.
A principal mensagem de Jó 42, é que no final Deus corrigirá todas as injustiças. Algumas tristezas, como, a morte dos filhos de Jó, a morte de meus filhos, de minha irmã, não são recuperadas nesta vida. Palavras de consolo não resolvem a dor que encontra solo fértil em nossos corações. Mas no fim, esta dor será absorvida pelo Criador do universo. Terei meus filhos e irmã de volta. E, se eu não acreditasse nisso, que eles estão neste momento, alegremente sorrindo, pulando, e explorando novos mundos, adorando e gozando do privilégio maior, convivendo face a face com o Criador deste fantástico universo, então eu não creria em coisa alguma e teria abandonado a fé cristã.
“Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens” (I Cor. 15:19). A esperança cristã afirma que a tragédia da perda de meus filhos e minha irmã não é apenas uma fatalidade. Não é simplesmente o problema de um defeito genético, um pedaço de DNA estragado no caso deles, e não foi apenas um erro médico que ceifou a vida dela.
A esperança cristã afirma que estes acontecimentos fazem parte de uma história, uma trágica história até o momento, mas não pertence à tragédia a última palavra. A esperança cristã afirma que o DNA estragado não ficará com a última palavra. Que o erro médico não prevalecerá. A esperança cristã afirma que um dia estaremos caminhando juntos novamente, sentaremos a mesma mesa como convidados especiais do grande e eterno Criador.
No caso de Jó nenhum camelo foi ressuscitado dentre os mortos. Nenhuma casa foi reconstruída. Nenhum filho ressuscitado. Nenhum milagre aconteceu – apenas confiança simples como a de uma criança na grande autoridade de Deus!
O silêncio divino que acompanhou Jó e Jesus, não era o silêncio da indiferença, mas o silêncio de um amor que aguarda o gesto recíproco. A razão das lutas que enfrentamos é demonstrar a nossa fidelidade a Deus. Deus aguarda em silêncio a nossa resposta. A vitória não vem de exercícios de guerra, mas na resposta de amor incondicional e desinteressado.
Jó confiou unicamente em Deus. No final, o conforto de Jó está em sua mortalidade. O corpo físico é reconhecido como pó, o drama pessoal como engano. É como se o mundo que percebemos com nossos sentidos, esse festival deslumbrante e terrível, fosse apenas a película que envolve uma bolha, e tudo o mais, dentro e fora dela, puro esplendor. Sendo assim o sofrimento e a alegria passam a ser então como um breve reflexo, e a morte apenas uma porta que leva a eternidade.

(Trecho extraído do livro "Náufragos da fé" de Samuel Rezende)